Arquivo do mês: maio 2010

Homem de Ferro 2

Por Matheus Saboia

Robert Downey Jr. volta a encarnar o papel responsável pelo renascimento da sua carreira:  a figura vaidosa e narcisista de Tony Stark. Logo no início, voltamos a testemunhar esse ego, ao observarmos o protagonista discursando para uma numerosa platéia a respeito das suas façanhas. Essa ótica de mostrar a satisfação do anti-herói em ostentar o seu poder é interessante, já que representa um ponto original em relação à maioria de filmes do gênero. Se personagens como Bruce Wayne encaram a luta contra o crime como um fardo, chegando a esconder da sociedade a sua verdadeira identidade, Tony Stark faz questão de exibir os seus poderes e se orgulha do status adquirido com a armadura. E, diga-se de passagem, é divertidíssimo acompanhar essa profunda paixão de Stark pelo próprio ego.

Esta continuação se inicia exatamente aonde o primeiro havia parado. Dessa forma, acompanhamos o discurso de Tony Stark, que culmina com a confissão “I’m the Iron Man”, ao passo que somos apresentados ao grande vilão da história, o russo Ivan Vanko (Mickey Rourke). Esse, embora represente o principal rival do protagonista, não será o único desafio a ser enfrentado.  Isso porque o governo norte-americano está na cola de Stark, para que esse compartilhe com o exército a tecnologia do traje de ferro – algo que  Stark nem pensa em fazer. Como complemento à essa situação caótica, o elemento responsável por manter o protagonista vivo, está paradoxalmente provocando sua morte.

Investindo numa estrutura parecida com a do primeiro filme, esta sequência obtém notórios acertos. Em primeiro lugar, são bem sucedidas as investidas do diretor em tornar crível a figura do Homem de Ferro. Ao empregar recursos como estampar a imagem do personagem em capas de revistas famosas, ficamos com a impressão de que no mundo atual, marcado por um constante desenvolvimento tecnológico, seria perfeitamente possível a existência de uma armadura que possibilitasse ao seu controlador poderes fantásticos. Além disso, o cineasta é eficiente ao criar boas sequências de ação, que contam com o apoio de sofisticados efeitos visuais, fundamentais para a elegância da produção.

Por outro lado, “Homem de Ferro 2″ contém sua parcela de problemas. O excesso de subtramas e de novos personagens, por exemplo, se revela uma faca de dois gumes, pois ao mesmo tempo em que proporciona situações interessantes, acaba impedindo o aprofundamento das histórias. Em função disso, o vilão acaba sendo mal desenvolvido, tornando-se uma figura unidimensional. Outro problema, também notado no primeiro filme,  está na condução das cenas em que Stark aperfeiçoa sua armadura. Ainda que necessárias, o excesso delas torna a narrativa lenta em algumas partes.

No entanto, tais falhas não comprometem o resultado positivo e seria injusto não classificar “Homem de Ferro 2″ como uma produção acima da média. As pessoas que forem ao cinema esperando se desligar do mundo por 120 minutos devem gostar da continuação. Afinal de contas, é sempre legal quando um filme consegue reunir entretenimento, bons atores e uma trilha sonora recheada de músicas da banda AC/DC. Melhor ainda quando tudo isso é liderado pelo talento de um dos melhores intérpretes do cinema americano: o grande Tony Stark, vulgarmente conhecido como Robert Downey Jr.

Nota: 7

Homem de Ferro 2 (Iron Man 2, 2010)

Direção: Jon Favreau

Roteiro: Justin Theroux (baseado nos quadrinhos da Marvel)

Elenco: Robert Downey Jr, Gwyneth Paltrow, Mickey Rourke, Don Cheadle, Scarlett Johansson, Sam Rockwell, Samuel L. Jackson

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Os 5 Melhores Filmes de Tribunal

Por Matheus Saboia

Sempre me interessei por obras com a temática ligada à julgamentos e tribunais. Por conta disso, o primeiro top do blog será dedicado aos filmes pertencentes a esse sub-gênero. Segue abaixo a classificação dos filmes selecionados para compor o ranking e uma pequena sinopse, cuja função é despertar o interesse do leitor.

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5. O Sol é para Todos (To Kill a Mockingbird, 1962)


Atticus Finch é um advogado íntegro, que assume a função de defender um homem negro injustamente acusado de violentar uma mulher branca. Ambietado numa daquelas cidades racistas do sul dos EUA, o filme procura balancear a parte técnica do julgamento e das argumentações com a relação de Atticus com seus filhos. Além disso, é bastante destacada a visão negativa que a sociedade possuía diante da posição do protagonista no julgamento. Vale lembrar que o filme foi feito na década de sessenta, época áurea dos Movimentos pelos Direitos Civis dos Negros.

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4. Testemunha de Acusação (Witness for the Prosecution, 1957)

Leonard Vole é acusado de assassinar uma rica viúva, com o intuito de ganhar dinheiro com a herança. Imediatamente, o renomado criminalista Sir Wilfrid Robarts é chamado para defender o réu  Apesar das circunstâncias apontarem a culpa de Vole, o advogado aceitará o desafio. As únicas chances de absolvição parecem residir no depoimento da mulher do acusado, Christine Vole. No entanto, o caso fica praticamente impossível quando a mesma Christine resolve assumir o papel não de defesa, mas de testemunha de acusação.

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3. Anatomia de um Crime (Anatomy of a Murder, 1959)

Paul Biegler é um competente advogado, que aceitará defender a causa de Frederick Manion, um ex-oficial do exército acusado de homicídio. O interessante é que neste filme, o réu não alega inocência, pelo contrário, ele admite a culpa, porém argumenta que a vítima teria estuprado sua esposa, a sensual Laura Manion. Com isso, o defensor tentará provar, com base em laudos médicos, que Frederick sofreu uma perda momentânea de sentidos durante o assassinato. Todavia, a repercussão do caso chamará as atenções do célebre promotor Claude Dancer, que fará de tudo para provar a reputação promíscua da mulher de Frederick e que o assassinato, ao contrário do que a defesa alega, foi um ato pensado.

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2. Julgamento em Nuremberg (Judgment at Nuremberg, 1961)

Pós Segunda Guerra Mundial. Em Nuremberg, o lado vencedor procura punir os responsáveis pelos horrores da guerra. Nesse contexto, um juíz americano é designado para julgar o caso de quatro homens da justica alemã, que colaboraram com o Terceiro Reich. O grande trunfo desse filme é analisar os dois lados da moeda. Ao contrário da grande maioria de obras do gênero, “Julgamento em Nuremberg” evoca verdadeiros debates referentes à emergência do Nazismo. Tudo isso, sem deixar de enfatizar as tragédias vistas nos campos de concentração. Obrigatório para todos aqueles que se interessam por Direito e Segunda Guerra Mundial.

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1. 12 Homens e uma Sentença (12 Angry Men, 1957)


Um dos maiores clássicos do gênero, “12 Homens e uma Sentença” não é exatamente um filme de tribunal, visto que é ambientado numa sala de júri, sem a presença de juízes, promotores e testemunhas. Porém, a natureza dos diálogos, a força das argumentações e a temática jurídica fazem com que essa obra se encaixe perfeitamente na categoria. O enredo é o seguinte: doze homens são colocados numa sala de júri para decidir o caso de um rapaz, que, uma vez condenado, sofrerá pena de morte. Onze jurados aparentam ter plena certeza da culpa do réu, mas o décimo segundo não está totalmente convencido. Assim tem início uma discussão contínua e acalourada, que terá como protagonistas pessoas totalmente diferentes, com as suas próprias ideologias, interesses e preconceitos.

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Menção Honrosa: Perfume de Mulher (Scent of a Woman, 1992)

O filme que rendeu o primeiro e único Oscar para Al Pacino definitivamente não se encaixa no ranking. A história de um ex-militar cego que contrata um estudante para acompanhá-lo durante uma viagem de fim de semana passa longe da linha das películas citadas. Entretanto, sua lembrança nesse espaço é justificada por uma cena específica, em que a personagem de Pacino se encarrega de defender o adolescente da educação rígida de um colégio interno.  Nesse momento, o ex-militar assume o papel de advogado, o jovem de réu e a estrutura inflexível e conservadora da escola, personificada na figura do diretor, cumpre a função desempenhada por um promotor. A junção desses elementos resulta em uma ótima cena, sustentada por um show de Al Pacino. Em função disso, não haveria como não condecorar o filme com uma menção honrosa.

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Nine

Por Daniel Senos

O grande clássico do Fellini, ‘’8½’’ é, sem dúvida alguma uma das obras máximas do cinema italiano. Com um roteiro que mistura devaneios e realidades, o filme nos conta a história de Guido, um atormentado e egoísta diretor que sofre com uma súbita falta de criatividade. Na obra, são expostos temas como a igreja e o processo de criação artística, com um toque bastante auto-biográfico. Ainda temos a destruição das barreiras que separam as manifestações oníricas do real, simbolismos fantásticos, atuações inspiradas e muito mais.

Uma vez que esse texto não possui intenção de abordar o filme do Fellini, essa breve introdução foi feita para dizer o que ‘’Nine’’ conseguiu arruinar. O único aspecto que este compartilha com o clássico é a excelente história, que é destruída por cenas musicais esteticamente bonitas, mas sem inspiração nenhuma e que não conseguem  prender o telespectador em suas seqüências.

A história fala sobre Guido, um cineasta que passa por um período artístico ruim, e está sendo pressionado para rodar um filme, o qual ainda não possui um roteiro. Sua equipe tenta trabalhar, tentando captar as idéias embaralhadas do conturbado artista mas este se encontra confuso e já não sabe pra onde correr. Como se dá a entender, o diretor já tem um histórico de obras bem conceituadas no cenário italiano, embora a história retrate especificamente esse período ruim de sua carreira. Mulherengo, não consegue ser fiel a sua esposa, Luisa (Marion Cottilard) e a monogamia parece ser algo distante de seu julgamento moral.  Possui até uma amante oficial, a sensual Carla Albanese (Penélope Cruz), fora as outras que aparecerão, como Stephanie (Kate Hudson) e Claudia (Nicole Kidman), para a tristeza de sua esposa.

Acontece que ‘’Nine’’ é um musical, e como um filme do gênero, as músicas devem ser no mínimo cativantes para fazer jus a sua denominação. Infelizmente é algo que não é visto na obra em questão.  Onde está a energia e potência de ‘’Chicago’’? As músicas são fraquíssimas e deixam a desejar, e nem mesmo um elenco escolhido a dedo pode salvar o filme da derrocada inevitável.

‘’Nine’’ possui um elenco forte, com beldades como Nicole Kidman (que, por sinal, não brilha quase nada no filme), Penélope Cruz esbanjando sensualidade em mais uma das músicas sem graça, e por fim, Kate Hudson e Marion Cottilard, que são as únicas que realmente chamam a atenção no filme. A primeira pelas melhores cenas musicais, e a outra pela atuação em si, comovente, singela e sofrida.

Daniel Day-Lewis merece atenção especial, pois mais uma vez está bem caracterizado e muito bem no papel proposto, mostrando mais uma vez que é um ator bastante completo e competente (embora não seja um dos melhores cantores). O seu papel como Guido está ótimo, e cumpre o papel de passar para o telespectador a ansiedade e tormento do perturbado diretor, e talvez o ator seja um dos poucos pontos positivos dessa obra.

Entendo que Rob Marshall tentou fazer uma homenagem ao grande Fellini, e provavelmente todos esperávamos algo do nível de ‘’Chicago’’ ou melhor. Mesmo assim, ‘’Nine’’ foi uma grave pisada na bola, e o diretor entregou um musical pobre em músicas, com um elenco belíssimo e sem energia nas cenas musicais (pouco originais). Assim como Guido e seu não-filme, cabe a Rob Marshall seguir em frente, todo artista tem uma fase ruim. E deixar Fellini se debatendo de raiva lá embaixo.

Nota: 4

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Chico Xavier

Por Daniel Senos

Fui ao cinema com a cabeça lotada de comentários e críticas ruins em relação ao novo trabalho de Daniel Filho. Particularmente, não apreciei nenhum trabalho do diretor até agora, tanto pela sua mão pesada em relação à direção de atores como pela sua limitação no papel de diretor. Filmes como ‘’A Partilha’’, ‘’Se Eu Fosse Você’’ e ‘’Primo Basílio’’ não me conquistaram, os quais considero medíocres. Porém, fui surpreendido com esse ‘’Chico Xavier’’, tanto pelas belíssimas atuações (basicamente um dos pilares que sustentam o filme) como a forma em que a trajetória da personagem espírita é tratada.

Antes de tudo, a intenção nesse texto é analisar a obra no que tange a sétima arte, logo sem preocupação nenhuma com crenças e religiões. Claro que o filme é totalmente mergulhado na doutrina espírita kardecista, mas seria um erro criticá-lo de acordo com o meu posicionamento religioso (sou ateu e respeito o espiritismo, doutrina com a qual tenho bastante contato por causa de meus parentes).

Tendo esclarecido essa questão, vamos ao que interessa.  O filme trata do médium Chico Xavier, uma figura polêmica e importante dentro da doutrina espírita e que comoveu o Brasil durante o período em viveu. Psicografava textos de espíritos, os quais sussurravam em seu ouvido o que deviam escrever, e desse modo escreveu mais de 400 livros, inclusive psicografou autores famosos, como Olavo Bilac e Augusto dos Anjos. Era visto como uma pessoa muito prestativa, sempre ajudava aos que lhe solicitavam ajuda.

O cineasta opta por começar o filme em um programa de perguntas que Chico Xavier participou, justamente para permitir a possibilidades de contas a história em formato de flashbacks. Temos a personagem de Tony Ramos bebendo em excesso logo nas primeiras cenas, o que demonstra certa falta de sutileza já característica do diretor, totalmente desnecessária.  Esse traço citado marcará algumas passagens do filme, o que só traz conseqüências negativas.

Logo somos transportados para a infância de Chico Xavier (agora interpretado por Matheus Costa), que é obrigado por Rita (uma bastante caricata Giulia Gam) a lamber a ferida de seu irmão, em meio a rezas da beata. O garoto é discriminado por ser o esquisito, estranho, pois diz ouvir vozes e ver coisas que ninguém ouve e vê, respectivamente. Nisso, a criança procura consolo nos braços da sua mãe, já falecida (Letícia Sabatella em uma atuação artificial surpreendente por tratar-se de uma atriz tão talentosa) e que se manifesta como um espírito. Esse primeiro momento é um tanto abaixo da média, pois as atuações soam tão performáticas que não passam credibilidade que o público precisa.

Ainda na infância Chico Xavier dialoga com um padre católico, Scarzelo (Pedro Paulo Rangel numa atuação divertida e de fácil de digestão), procurando salvação por meio de orações intermináveis e pagamento de sacrifícios (como carregar um pesado tijolo na cabeça durante uma procissão). Durante esse período, a personagem é vista como um esquisito e é bastante discriminado pelos seus colegas, o que é bem retratado no filme.

Mais tarde, Chico (Ângelo Antônio, muitíssimo bem em sua atuação) adota uma postura mais madura e, ao invés de tentar se livrar desse atributo diferente em si procura a todo custo entendê-lo.  Nesse período temos mais uma das presenças de mão pesada do diretor, na sequência em que o pai de Chico (Luís Mello) leva-o a um bordel para que o filho perca a virgindade. Momentos depois de Chico Xavier entrar no bordel e interagir com uma das mulheres, todos estão rezando, ajoelhados no chão, enquanto a personagem de Paulo bebe com outra mulher e a cena se desenrola com uma comicidade desnecessária.

É nesse período de juventude que Chico começa a compreender o seu dom, a escrever as famosas psicografias e publicar livros. Atende muitas pessoas em casa para entregar cartas de parentes e entes queridos que já haviam partido e ajudando a população no que podia. Aqui temos uma visão um tanto mitificada de Chico Xavier, pois este parece imune a qualquer outro sentimento humano, sempre sendo mostrado como calmo e sereno, quando a inserção de uma cena de um Chico irritado o tornaria bem mais humano.

Existe uma sequência totalmente infeliz, que é quando  Chico (mais velho, interpretado por Nelson Xavier) está viajando de avião e que enfrenta uma turbulência.  Chico fica apavorado e Emmanuel, o espírito que é o seu guia espiritual (André Dias) dialoga com a personagem principal, numa divertida cena de humor. Até que, quando a turbulência passa, a piada é cruelmente destruída por um coro de ‘’amém’’ vindo do avião, estragando todo o humor da cena, reafirmando a falta de sutileza do diretor.

Mais tarde ainda teremos a subtrama de Orlando (Tony Ramos) e Glória (Cristiani Torloni) que provavelmente é a parte mais comovente do filme. Se bem que, outro pilar que sustenta o filme é o poder que ele tem de mexer com o público, cumprindo o papel de levar um pouquinho da trajetória de caridade e doação de Chico Xavier a cada telespectador, um fator incrível para a obra. As atuações de Tony Ramos e de Cristiani Torloni são ótimas e só potencializam a comoção causada nas cenas finais do filme.

Ao final, Daniel Filho acerta ao colocar filmagens reais de Chico Xavier no programa de perguntas ao lado dos créditos, o que adiciona ao filme uma dose extra de realismo. O que decepciona na obra é que ela poderia ter sido muito melhor se não fosse a extrema falta de sutileza do ator e uma direção de atores mais competente, o que fez muita falta principalmente no início do filme, que é precário. No mais, o filme consegue atingir em cheio o grande público, levando uma bonita mensagem dessa personagem polêmica que fez um trabalho de caridade admirável. Impossível ir a uma sessão sem encontrar alguém se emocionando (eu saí de uma sessão onde um homem estava aos prantos, sendo acolhido pela namorada).

Nota: 5

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Alice no País das Maravilhas

Por Matheus Saboia

O currículo do cineasta Tim Burton é recheado de produções com inclinações ao sombrio e ao excêntrico, como, por exemplo, Edward Mãos de Tesoura, Sweeney Todd e A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça. Sendo assim, é compreensível a escolha do diretor em adaptar o clássico literário de Lewis Carroll, já que o enredo é passado num mundo fantasioso, cheio de criaturas fantásticas.

Para quem não conhece a trama, ela é focada em Alice, uma jovem que durante toda a vida sofreu com um sonho bizarro, em que figuras como a de um gato sorridente e a de um chapeleiro louco eram constantes. Aos 19 anos, durante uma festa de casamento, a moça nota um coelho com roupas correndo pelo jardim e resolve segui-lo. Com isso, a jovem será guiada até o País das Maravilhas, que se revelará o universo onde estão situados os seus estranhos sonhos.

Embora a premissa que servirá de ponto de partida para a história seja interessante, a adaptação para o cinema deixou muito a desejar. Tim Burton emprega um tom excessivamente infantil, o que é um erro, visto que a história é considerada um clássico da literatura universal, algo que deveria agradar a todas idades. O desenrolar apressado da trama e o raso aprofundamento das personagens dão ao filme um caráter medíocre. Alinhado a esses fatores, a direção de Burton parece focar tanto na elaboração do mundo fantástico, que se esquece de dar dinamismo à narrativa. Sendo assim, as cenas não empolgam em nenhum momento e a obra falha no quesito entretenimento.

Nem mesmo o elenco de peso é suficiente para salvar a película da mesmice. Em uma equipe de grandes nomes, não temos nenhum destaque. O astro Johnny Depp está pouco inspirado como o Chapeleiro Louco. Os fãs do ator, acostumados com o carisma e a irreverência que ele imprime às suas personagens, podem se desapontar um pouco com a sua performance. A impressão que fica é que o tempo do Chapeleiro em cena se deve muito mais à fama do seu intérprete do que a importância da personagem na trama.

Como já foi dito, percebe-se uma grande preocupação do diretor quanto ao visual. Quanto a isso, devem ser feitas algumas considerações. Há uns meses atrás, o diretor de Avatar, James Cameron, deu uma declaração, expondo a sua posição contrária em relação à decisão dos estúdios de converter filmes, originalmente realizados em 2D, para o 3D. Sua justificativa é que essa prática daria ao filme um aspecto de produção barata e mal feita. Levando em consideração que Cameron revolucionou o cinema com a tecnologia empregada em Avatar, a sua opinião deveria ser mais do que considerada.

Infelizmente a ganância dos estúdios em maximizar os lucros parece ter falado mais alto e “Alice no País das Maravilhas” foi reconfigurado para o formato tridimensional. A única certeza sobre o 3D de Alice é que ele foi pensado muito mais como uma forma de atrair pessoas ao cinema do que como algo necessário à narrativa. Na verdade, o fator 3D é notado em pouquíssimas cenas do filme e não justifica o ingresso mais caro.

Em virtude do sucesso de público que teve nos EUA e da equipe consagrada envolvida, as expectativas em torno do filme no Brasil foram bem grandes. Infelizmente o novo trabalho de Tim Burton, que poderia ter se tornado uma adaptação à altura do prestígio da obra de Carroll, deve frustrar grande parte dos fãs do diretor, assim como deve desagradar os apreciadores do livro. No final das contas, “Alice” é mais uma produção destinada ao público infantil, mais ou menos como foram as adaptações de “Crônicas de Nárnia” e “A Bússola de Ouro”.

Nota: 3

OBS: Embora receba o nome “Alice no País das Maravilhas”,  a história não é uma adaptação integral do livro de Carroll, uma vez que é focada num retorno da protagonista ao País das Maravilhas, anos depois da sua primeira viagem à esse universo.

Alice no País das Maravilhas (Alice in Wonderland, 2010)

Direção: Tim Burton

Roteiro: Linda Woolverton (baseado no livro de Lewis Carroll)

Elenco: Mia Wakikowska, Johnny Depp, Helena Bonham Carter, Anne Hathaway, Crispin Glover, Alan Rickman

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Como Treinar o Seu Dragão

Por Matheus Saboia

Embora seja o estúdio responsável pela franquia de enorme sucesso “Shrek”, a Dreamworks vem exercendo um papel secundário no mundo das animações. Isso porque a Pixar, pioneira na realização de animações computadorizadas, vive uma fase de glórias e tem provado ser um dos estúdios mais competentes da indústria americana. Liderada por grandes mestres como Andrew Stanton (Wall-E), John Lasseter (Toy Story) e Brad Bird (Os Incríveis), a Pixar consegue manter um alto nível de qualidade. Embora essa conjuntura seja um fato, a Dreamworks conseguiu com seu “Como Treinar o Seu Dragão” mostrar ao mundo que existe vida inteligente fora da Pixar.

Ambientado numa aldeia de guerreiros viking, que sofre constantemente com o ataque de dragões, a história é centrada em Soluço, um jovem franzino e desengonçado, que possui um sonho aparentemente impossível: tornar-se um guerreiro. Sempre disposto a ajudar sua aldeia, lutando contra os dragões, o jovem é quase sempre impedido pelos mais velhos de realizar tal tarefa, devido à sua falta de aptidão física. Porém, a ânsia do rapaz em virar guerreiro é abalada, quando ele encontra um dragão ferido na floresta. A partir daí, Soluço reavaliará a sua concepção sobre tais criaturas.

O filme conta com todos os ingredientes necessários para uma boa animação: personagens cativantes, certa dose de ação, passagens emocionantes e um bonito visual, realçado pelo bom uso do 3D. Além disso, a história é bastante eficiente ao criar uma mitologia referente aos dragões, em que cada uma dessas criaturas é dotada de características próprias. É muito interessante mergulhar nesse universo e descobrir as particularidades de cada dragão.

Como já foi dito, o visual é um importante elemento nessa animação. O seu emprego é particularmente bem sucedido no momento em que a câmera acompanha o vôo do dragão do título pelas redondezas da aldeia de Soluço. Nessa cena, o espectador presencia com uma vivacidade impressionante a natureza do local. Outro exemplo de espetáculo visual é percebido nas cenas de treinamento dos aspirantes à guerreiro, que acontece numa espécie de Coliseu. Toda essa beleza é percebida graças à rica direção de arte e à boa utilização da técnica do 3D.

Enfim, após um período marcado por uma certa supremacia da Pixar, a Dreamworks ganha um sopro de vida com a sua nova animação. Temos que torcer para que os futuros lançamentos do estúdio sejam tão bem feitos e originais quanto “Como Treinar o Seu Dragão”. Caso isso aconteça, a Pixar ganhará uma forte concorrente em solo americano, no que tange à qualidade das animações. E quem sai ganhando é o público, que terá a chance de conferir cada vez mais obras de qualidade no gênero.

Nota: 9

Como Treinar o Seu Dragão (How to Train your Dragon, 2010)

Direção: Dean DeBlois e Chris Sanders

Roteiro: Dean DeBlois, Chris Sanders e William Davies (baseado em livro de Cressida Cowell)

Elenco (vozes): Jay Baruchel,Gerard Butler, Craig Ferguson, America Ferrera, Jonah Hill

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(500) Dias com Ela

Por Daniel Senos

”So for once in my life
Let me get what I want
Lord knows, it would be the first time”

O gênero comédia romântica está desacreditado há algum tempo, isso é fato. Produtos de Hollywood que seguem a velha fórmula, já desgastada: homem-conhece-muher, rola um clima, acontece um contratempo e no final, uma lição sobre o amor e um final feliz. ‘’(500) Dias Com Ela’’ tenta inovar o gênero, com um estilo mais indie, talvez até um clima de cinema independente. Infelizmente desanda para o clichê à medida que se dá seu desenvolvimento, embora ainda haja bons momentos e uma atuação sinérgica interessante do casal protagonista.

Como personagem principal temos Tom Hansen ( Joseph Gordon-Levitt), um jovem frustrado, formado em arquitetura mas trabalha numa empresa que confecciona cartões comemorativos. Um dia, chega à empresa Summer Finn (Zooey Deschanel), contratada como secretária de seu chefe. Tom se apaixona por Summer e, à medida que a conhece, se envolve mais ainda. Summer, por sua vez, só quer se divertir, não acredita em amor ou alma gêmea, e aí começam os problemas.

A influência de Woody Allen é clara, já que o filme trata de um casal estranho em uma ordem não linear, misturando as recordações como se fosse um bordado (‘’Noivo Neurótico, Noiva Nervosa’’). Pode-se até citar o trançado feito na linha temporal de Kaufman e Gondry no ‘’Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças’’, feito de uma forma mais elaborada e experiente. No filme em questão, a contagem dos 500 dias se torna totalmente inútil, já que as atitudes das personagens já denotam a passagem de tempo.

Nota-se uma forte indecisão sobre o rumo que o diretor quer tomar com o filme: a primeira impressão é a de um filme que tenta fugir ao mainstream, criando uma atmosfera indie; em algumas horas se assemelha aos outros filmes de comédia romântica; e por fim tenta se sustentar com algumas piadas desnecessárias e que não se encaixam no contexto criado. A sequência musical é agradável, mas se estende demais, tornando-a exaustiva.

O casal principal goza de uma forte sinergia e a atuação dos dois atores é cativante. Joseph Gordon-Levitt consegue passar toma a paixão da sua personagem, um romântico que desesperançoso e solitário que acredita até demais no amor. Zooey Deschanel por sua vez interpreta uma personagem distante, talvez por não querer nada sério com a personagem ou por não corresponder ao sentimento de Tom.

O filme tem bons momentos, como a sequencia em que a tela se divide em ‘’expectativa’’ e ‘’realidade, extremamente criativa. A trilha sonora é boa, contando com ‘’The Smiths’’ e ‘’Simon & Garfunkel’’ e dá o tom dessa relação sem rótulos vivida durante quinhentos dias pelos dois jovens. O final é interessante, diferente dos desfechos usuais dos filmes do gênero e define bem o que acontece na maioria dos relacionamentos. Cuidado, o efeito catártico pode ser forte!

Nota: 6,5

500 dias com ela (500 days of Summer, 2009)

Direção: Marc Webb

Roteiro: Scott Neustadter e Michael H. Weber

Elenco: Joseph Gordon-Levitt, Zooey Deschanel, Chloe Moretz, Geoffrey Arend

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