Arquivo do mês: julho 2010

Bella

Por Daniel Senos

Todos nós estamos expostos a causalidades que tem o poder de virar a nossas vidas de cabeça para baixo ou mesmo de mudá-las para melhor. Essa eterna transitoriedade a que estamos permanentemente vulneráveis enquanto vivos é a grande lição que ‘’Bella’’ nos apresenta.  Como a vida de Jose (Eduardo Verástegui) subitamente muda, depois de um evento inesperado, logo quando estava a um passo de realizar seus sonhos

A linha da narrativa é um tanto confusa e mistura o passado e presente de Jose, quando estava prestes a assinar um contrato multimilionário ainda na posição de um famoso jogador de futebol, momentos antes do acidente que mudaria a sua vida, e o que aconteceu após o acidentes, trabalhando como chef da cozinha do restaurante de seu irmão. As sequencias misturadas funcionam bem até certo ponto, como artifício para adiar o clímax, mas de alguma forma criam certa confusão por falta de organização, como a cena em que Jose acompanha Nina (Tammy Blanchard) no hospital, que soa bastante destoada.

A história que o roteiro propõe-se a contar é bonita e mostra uma bela relação da família de Jose, seus irmãos e pais. Quando a personagem resolve levar Nina a casa de seus parentes, nos deparamos com uma calorosa família, sempre preocupada e atenciosa com os filhos, a ponto de Nina indagar – ‘’A sua casa é sempre assim, lotada de amor?’’. Interessante como é mostrado que a família é um ponto de apoio fundamental, uma estrutura que é capaz de acolher seus componentes nos momentos mais trágicos, ajudando-o a recuperar-se do sofrimento (no caso de Jose).

A relação entre o irmão que é dono de restaurante e Jose também é mostrada de modo sensível, quando fazem as pazes sutilmente. Jose serve-lhe um café da manhã, os dois trocam empurrões e trocam um rápido abraço, mostrando mais uma vez como a capacidade de reparação é importante e presente na estrutura familiar.

A relação entre Nina e Jose à primeira vista é um romance que está prestes a acontecer (pelo menos por parte do protagonista), mas a uma segunda impressão vemos que é apenas uma necessidade de carinho de ambas as partes. E é ainda mais complexo, quando Nina revela estar grávida e brinca com a idéia de entregar essa criança indesejada,o que mexe profundamente com Jose.  Os dois passam bastante tempo juntos, com direito a visitar a casa da família e a Jose levá-la a um romântico passeio noturno na praia, à luz de lanternas. Uma abordagem diferente e madura sobre uma relação humana, duas pessoas que possuem mundos totalmente distintos e que simplesmente estão precisando de carinho e com quem desabafar.

Por fim, em meio aos diálogos em que os dois vão se conhecendo, os motivos de sofrimento do protagonista vão ficando mais claros, e não há como não se comover com seus motivos.  A protagonista carrega essa dor durante anos e sua amargura é sentida pela belíssima interpretação de Eduardo Verástegui. Às vezes são esses poucos segundos em que um evento aleatório é desencadeado sobre as nossas vidas que definem o (novo?) rumo que elas irão tomar.

Nota: 8,5

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Do Jeito Que Ela É

Por Daniel Senos

A obra de Peter Hedges, ‘’Do Jeito Que Ela É’’ (No original, Pieces of April, título distorcido cruelmente pela tradução brasileira e que faz algum sentido se analisado junto ao filme) aborda um tema bastante comum em termo de família. Muitas vezes as diferenças acabam provocando rupturas em muitos lares, e a falta de diálogo e até de respeito e compreensão agravam divergências de posicionamentos, que podem culminar em rompimentos de laços entre familiares.

Uma das filhas, April (Katie Holmes), a considerada ovelha negra da família convida sua família para passar o dia de Ação de Graças em sua casa. Como é comum a preparação de uma ceia nessa data, April fica responsável por preparar a grande refeição, até que, na hora de preparar o peru… Descobre que o fogão está quebrado! Desesperada, a querida ovelha negra da família fica à mercê de seus vizinhos e aí a história se desenvolve.

Enquanto isso, no núcleo da família que se desloca para a casa de April, todos falam mal de April, ressaltando seus defeitos e a insatisfação de irem pra lá. Com exceção do pai (Oliver Platt), que rebate as críticas à filha, dizendo que deveriam dar outra chance a ela e esquecer os momentos ruins no passado. A mãe desdenha da filha e diz não guardar nenhuma recordação boa da mesma. No filme não fica tão claro, mas a mãe parece apresentar alguma doença terminal, o que faz com que a família tente satisfazer todas as suas vontades.

April pede ajuda a seus vizinhos, alguns ajudam de coração aberto, recebendo-a de forma calorosa e ajudando-a com dicas. Outros exigem algo em troca, indagando à personagem ‘’O que eu ganho em troca?’’. Tem até vizinho que ajuda sem precisar falar a mesma língua, como a família de orientais que a recebe. O roteiro faz um estudo interessante e divertido sobre o altruísmo do ser humano e aborda um ponto de vista positivo, na medida que April consegue ajuda da maioria dos vizinhos que pede.

O vizinho egoísta representa muito bem o estereótipo do homem moderno, que está sempre focado em si mesmo. Isolado em seu próprio mundo, com seus artigos tecnológicos de última geração (um fogão de primeira linha, novíssimo no caso). Mostra-se até um receio em lidar com outras pessoas ‘’externas’’ ao seu mundo, como quando o vizinho se refere à April, falando para seu cachorro – ‘’calma, ela não morde’’. Com humor, o diretor trata essa visão do homem moderno de forma despretensiosa, mas um tanto crítica e bem colocada.

O filme ainda traz uma sequência bonita em seu final, quando há uma reconciliação e uma atitude inesperada da mãe (que não será revelada aqui, nesse texto).  A ausência de trilha sonora deixa o filme com um tom cru, em April e seus pedaços deixados em cada lugar que passa. Ao final, quando consegue finalmente reunir todas essas pequeninas partes de si que deixara espalhada pelo prédio, sente-se completa ao recuperar a única parte que faltava para completá-la, sua família.

Nota: 7

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