Arquivo do mês: agosto 2010

Faça a Coisa Certa

Por Matheus Saboia

O cenário é um bairro marcado pela diversidade étnica. Pano de fundo perfeito para o diretor Spike Lee desenvolver suas impressões acerca dos conflitos raciais que permeiam a sociedade norte-americana. Antes de tudo, deve-se destacar o quanto essa temática é importante para o cineasta, que já levou para as telas do cinema a história do ativista Malcolm X, num filme estrelado por Denzel Washington. Pois bem, “Faça a Coisa Certa”, como já foi dito, é focado num bairro e os acontecimentos do filme se concentram em um dia, precisamente no dia mais quente do ano. Particularidade que, sem dúvidas, potencializará os nervos dos moradores e fará com que certos sentimentos há muito tempo escondidos sejam convertidos em ações.

O ambiente é um verdadeiro barril de pólvora e a mais singela faísca será suficiente para desencadear trágicos acontecimentos. Pode-se dizer que o conflito central tem início quando um ativista negro exige que Sal – um ítalo-americano, dono de uma pizzaria – coloque fotos de negros ilustres na parede do seu estabelecimento, até então ocupada apenas por ítalo-americanos. A recusa do proprietário gera um forte sentimento de revolta no ativista, que decide organizar um boicote contra o restaurante.

O foco do filme nao está em nenhuma personagem em particular, e sim no contexto; o bairro marcado pela multiplicidade racial e cultural. Dessa forma, somos apresentados a uma galeria de personagens, pertencentes aos mais diversos grupos. Temos negros, ítalo-americanos, hispânicos, coreanos, judeus, etc. E o cineasta Spike Lee faz questão de enfatizar que o racismo está presente em todos esses núcleos, evitando o simplismo de querer mostrá-lo apenas em determinados grupos. Há uma cena em particular que ilustra perfeitamente o que acabo de dizer. Trata-se de uma pausa em que o diretor dá voz às suas personagens, para que essas discorram a respeito do outro, do indivíduo pertecente a uma cultura diferente. Tais discursos, carregados de ódio e rancor, são um prenúncio do caos iminente.

Interessante notar que em meio a essa atmosfera de tensão, há uma personagem, a exceção, que não se deixa levar pelos discursos preconceituosos, apresentando-se como a única figura sóbria nesse sentido. Mais curioso ainda é o fato dessa sobriedade e lucidez se manifestar na figura de um mendigo beberrão, alvo de desprezo pela maior parte dos moradores.

Como costumo fazer em meus comentários, não posso deixar de falar um pouco sobre as atuações. O elenco, que combina atores consagrados com outros iniciantes que ainda viriam a se consagrar, é eficiente e contribui bastante para o êxito do filme. Porém, é difícil não destacar o nome de Danny Aiello dentre os demais. Como intérprete de Sal, o dono da pizzaria, o ator esbanja talento ao construir uma personagem extremamente complexa, cujas visões sofrem profundas mudanças ao longo da narrativa.

Embora seja um de seus primeiros trabalhos, Spike Lee atinge em “Faça a Coisa Certa” um altíssimo grau de maturidade, que acarreta numa das mais relevantes obras cinematográficas da década de 80. Além de possuir um excelente roteiro, riquíssimo na abordagem das tensões raciais, o filme possui uma narrativa fluente, ágil e com cenas verdadeiramente inesquecíveis. Mais do que um filme obrigatório para quem se interessa pelas questões sociais suscitadas, “Faça a Coisa Certa” é um notório exemplo de clássico moderno, sendo, portanto, indispensável para os amantes do cinema.

Nota: 9

Faça a Coisa Certa (Do the Right Thing, 1989)

Direção: Spike Lee

Roteiro: Spike Lee

Elenco: Samuel L. Jackson, Danny Aiello, Spike Lee, Ossie Davis, John Turturro, Giancarlo Esposito, Ruby Dee, Bill Nunn

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