Arquivo do mês: outubro 2010

Ensina-me a Viver

Por Daniel Senos

Não conhecia o trabalho do diretor Hal Ashby até me deparar com essa grande obra, sugerida pela minha querida genitora. Com um roteiro permeado de uma comicidade maestral mesmo ao lidar com temas mórbidos e cenas bizarras, ‘’Ensina-me a Viver’’ pode ser visto de diferentes ângulos dado a sua história bem escrita (créditos a Colin Higgins), mas o foco gira em torno mesmo de um aspecto: a relação humana e o amor.

O jovem Harold (Bud Cort) desfruta de um prazer mórbido que nos é apresentado no filme com certo humor a cada manifestação: gosta de simular suicídios, de preferência quando sua mãe está por perto. Sua bizarrice vai além, e essa fixação de se colocar próximo à morte lhe faz freqüentar funerais aleatórios e até a comprar um carro com o modelo daqueles usados pelas funerárias para transportar caixões. Nos deparamos com um personagem (interpretação sublime de Bud Cort) com um olhar assustado e triste, que não encontrou outro modo de obter o prazer de viver a não ser o desprazer de estar ao lado da morte, constituindo um paradoxo intrigante.

Curioso notar que Harold nunca passa do quase, do meio termo, em suas peripécias suicidas. A personagem procura estar sempre próximo à morte mas nunca vai de encontro a ela, o que nos leva a entender que a personagem de fato não quer se suicidar mas sim passar por algo semelhante aos paraquedistas e saltadores de bungee-jump, só que de forma diferente. Essa experiência de quase morte por meio das simulações de suicídio é sentida por Harold como algo desprazeroso (como nos mostra as suas reações, seus olhares perdidos, seus ombros caídos), mas que lhe serve como forma de fruição da vida, o que de alguma forma lhe dá prazer.

Sua mãe visivelmente não lhe dá a mínima e se mostra indiferente às brincadeiras bizarras de seu filho. As tentativas que faz de arranjar uma esposa para seu filho são frutos das exigências sociais que a sociedade moderna impõem, tanto que tenta empurrar as pretendentes a Harold (que foram achadas em classificados) afim de casa-lo logo. Nenhuma delas atrai o jovem, que faz de tudo para espanta-las, para o horror de sua mãe.

A história se costura com uma comicidade muito peculiar, pois as belas atuações permitem um humor negro delicioso. De alguma forma o telespectador experimenta o prazer de Harold em suas simulações na indiferença e nos sustos que sua mãe e suas pretendentes levam. A direção de Hal Ashby se mostra genial com os movimentos de câmera, explorando as feições diversas das personagens e enquadrando as duas para permitir esse contraste cômico.

Maude (Ruth Gordon, excelentíssima) aparece de repente, em um funeral e logo conquista a atenção do jovem Harold com a sua jovialidade e sede por desfrutar da vida. Um pequeno detalhe: Maude tem seus 70 e poucos anos. Esse encontro tão inusitado, de duas personagens com uma diferença de idade grande e modos distintos de viver é a relação que dá título ao filme (‘’Harold and Maude’’, no original) e é o que mudará para sempre a vida de Harold.

Aquele garoto que outrora andava por funerais, triste e cabisbaixo é tomado pela alegria de sua nova parceira e começa a enxergar como é possível desfrutar das coisas que o mundo nos oferece, a liberdade que está em nossa porta para usufruirmos do que quisermos. A importante lição que Maude dá a Harold é simples e forte, e era justamente a mensagem que ele precisara. Incrível é o fato de uma senhora de idade ensinar um jovem de com seus quase 20 anos a viver, a se lambuzar com o que a vida os oferece de melhor.

O que surge entre os dois é tão jovial que esquecemos a diferença de idade por alguns momentos, pois vemos as personagens se entregando um ao outro de forma dócil e lenta, bem romântica. Como um casal de adolescentes apaixonados, trocam presentes e carinhos e passam o tempo juntos a namorar. Nesse momento o filme encanta pela delicadeza em tratar do nascimento de um sentimento grande e bonito, que não vê idade nem credo,e não adianta, nem padre nem psicanalista vão tirar isso da cabeça do jovem Harold!

A conclusão dessa grande obra (que não será revelada aqui, não se preocupe) não poderia ser melhor e foi a lição máxima para Harold dar uma guinada em sua vida de uma vez por todas. As cenas finais, mais dramáticas e de colocar lágrima nos olhos de qualquer marmanjo, são belíssimas e completam a mensagem do filme.  Maude é daquelas pessoas que chegam de repente em nossas vidas somente para passar uma lição importante e quando menos se espera, elas partem. A impressão é que vieram só para ensinar algo, e no caso, ensinar um jovem atormentado a viver.

Nota: 9

Anúncios

Deixe um comentário

Arquivado em Filmes

Top 10 – Os Melhores Filmes Estrangeiros da Década

Por Matheus Saboia

O critério é o mesmo utilizado pelo Oscar na categoria de melhor filme estrangeiro, isto é, somente são consideradas as produções de língua não-inglesa. Também não levei em conta os brasileiros, já que como brasileiro, não poderia considerá-los estrangeiros. Resumindo, são dez grandes filmes feitos na última década, que considero obrigatórios para todos aqueles que se interessam por cinema. Na lista temos Almodóvar, Campanella, Von Trier, Javier Bardem, dentre outras grandes personalidades do cinema mundial. Quanto aos países, Argentina, México e Espanha lideram o ranking, possuindo 2 representantes cada.

Até o momento, somente dois filmes citados no top possuem críticas no site (O Filho da Noiva e Dogville), porém a meta é com o tempo publicar textos para todos. Enfim, vamos ao que interessa:

10. O Labirinto do Fauno (México, 2006)

Raro exemplar do gênero fantasia no cinema latino-americano, mescla com perfeição o horror da guerra civil espanhola (pano de fundo da história) e a magia presente no mundo fantasioso de Ofelia. A originalidade é o ponto forte do longa, que é centrado numa série de tarefas que Ofelia é obrigada a prestar a um fauno, para provar sua ligação com a realidade mágica paralela. Como já foi dito, o filme ainda possui o mérito de não esquecer de abordar com crueza a violência dos conflitos entre os rebeldes e as tropas do ditador Franco.

9. Fale com Ela (Espanha, 2002)

É, sem dúvidas, o filme de Almodóvar que eu mais gosto. O diretor revela sensibilidade ao abordar a relação que Benigno e Marco estabelecem com Alicia e Lydia, duas mulheres que estão em estado de coma.

8. O Segredo dos Seus Olhos (Argentina, 2009)

Vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro, “O Segredo dos Seus Olhos” é o segundo filme argentino na história a faturar o prêmio (o primeiro foi “A História Oficial”). Conta a história de Benjamin Esposito, um oficial de justiça que decide escrever um livro baseado num fato de sua vida, ocorrido décadas atrás, que o marcou profundamente. História sensacional, dirigida por Juan José Campanella (“O Filho da Noiva”), que demonstra sua exímia competência num plano sequência magistral focado em um campo de futebol. Na minha opinião, foi o melhor filme do ano passado, ao lado da animação “Mary and Max” e de “Bastardos Inglórios”.

7. O Fabuloso Destino de Amélie Poulain (França,2001)

“O Fabuloso Destino de Amélie Poulain” parece ser um daqueles filmes que já nasceu clássico. Apesar de ser relativamente recente (afinal, 9 anos não é muita coisa se tratando de cinema), Amélie já é uma referência nos chamados filmes cult e alternativos (seja lá o que tais conceitos queiram dizer). O fato é que trata-se de uma obra extremamente cativante, bem realizada e que ainda possui uma bela fotografia.

6. O Filho da Noiva (Argentina, 2001)

Leia a crítica.

5. A Vida dos Outros (Alemanha, 2006)

Na época, fiquei bastante surpreso ao saber que “A Vida dos Outros” havia vencido “O Labirinto do Fauno” no Oscar de melhor filme estrangeiro. No entanto, bastou conferir o filme nos cinemas para me dar conta da sua grandiosidade. É, com certeza, uma das obras que melhor retrata a Berlim Oriental. Ulrich Mühe está fabuloso como um vigilante do governo, encarregado de espionar a vida íntima de um casal suspeito de conspiração.

4. Dogville (Dinamarca, 2003)

Leia a crítica.

3. Amores Brutos (México, 2000)

Em seu primeiro trabalho de grande repercussão, Iñárritu conta três histórias que irão se cruzar ao longo do filme. Gael Garcia Bernal é Octavio, um jovem que pretende fugir com a mulher do irmão e, para isso, tentará arranjar algum dinheiro, utilizando seu cachorro em rinhas de briga; Valeria é uma modelo famosa, feliz pelo fato de seu amante ter abandonado mulher e filhos por sua causa; ainda temos Chivo, um ex-guerrilheiro que atualmente mora nas ruas, e que sobrevive trabalhando como matador de aluguel. Um acidente de carro irá conectar esses três universos tão distantes.

2. A Viagem de Chihiro (Japão, 2001)

Talvez tenha sido com “A Viagem de Chihiro” que Hayao Miyzaki cristalizou de vez seu nome no ocidente. Condecorado com um Oscar de melhor animação, o filme conta a história de Chihiro, uma menina que, ao testemunhar seus pais se transformando em porcos, terá que se aventurar em um mundo mágico para tentar salvá-los.

1. Mar Adentro (Espanha, 2004)

Apesar de ter explodido internacionalmente como o facínora Anton Chigurh em “Onde os Fracos Não Têm Vez”, continuo achando que a melhor atuação de Javier Bardem está em “Mar Adentro”. Baseado na história real de Ramon Sampedro, Bardem interpreta um homem tetraplégico que luta pelo direito de morrer numa Espanha que proíbe a eutanásia.

OBS: “Dogville” é uma exceção no top, uma vez que é o único filme falado em inglês. No entanto, três fatores fizeram com que ele entrasse no top: 1. a nacionalidade do diretor 2. a nacionalidade da produção 3. a temática, que é absolutamente contrária aos padrões hollywoodianos.

5 Comentários

Arquivado em Tops

Sob o Domínio do Medo

Por Matheus Saboia

Incentivado por diversas críticas positivas lidas na internet sobre o filme, resolvi conferir “Sob o Domínio do Medo”, do cineasta Sam Peckinpah. Apesar de ter sido meu primeiro contato com a filmografia do diretor, Peckinpah possui uma fama que o precede, e , por conta disso,  já tinha ouvido falar do estilo cru e violento de suas obras.  Tal fama é perfeitamente ilustrada em “Sob o Domínio do Medo”, que narra o drama de um casal,  que, em busca de uma vida sossegada no interior, acaba se deparando com um verdadeiro inferno, promovido pela hostilidade da população local.

O filme é estrelado por um novato Dustin Hoffman, que vinha consolidando sua carreira em Hollywood, após ter emplacado os aclamados “Perdidos na Noite” e “A Primeira Noite de um Homem”. Em “Sob o Domínio do Medo”, ele interpreta um matemático de comportamento tranquilo, casado com uma bela mulher. Logo no início, quando o casal faz o primeiro contato com as pessoas da região, percebemos algo estranho na cidade. A verdade é que a brutalidade desses indivíduos é evidenciada pelo diretor desde o princípio, seja através de uma briga no bar, seja por meio dos olhares ofensivos que todos os homens lançam a mulher de David (Hoffman).

Apesar do público perceber imediatamente a estranheza de tais comportamentos, o casal de protagonistas não consegue enxergar a periculosidade dos habitantes, chegando ao cúmulo de contratar alguns deles para realizar pequenas obras na sua nova casa. Diga-se de passagem, a apatia e ingenuidade dos protagonistas, principalmente do marido, chegam a irritar o espectador. Enquanto a personagem de Hoffman parece ignorar sinais da hostilidade local, a esposa é uma eterna dúvida, pois ao mesmo tempo em que tenta alertar o marido, há momentos em que ela assume uma postura promíscua, incitando a ação dos algozes.

A grande proposta da trama é mostrar até que ponto um cidadão tranquilo, avesso a qualquer tipo de brutalidade, pode aguentar, num ambiente em que o uso da violência é absolutamente necessário para sobreviver. Dessa forma, o fundamental da história é acompanhar a transição da personagem de Hoffman, de um tímido matemático a uma fera decidida a fazer qualquer coisa para proteger sua propriedade e sua família.

Ao longo do filme são mostradas algumas condutas do protagonista, que denunciam uma sutil insatisfação deste com o meio, como, por exemplo, uma cena em que David dá uma resposta afiada ao reverendo da cidade, quando este ofende a classe dos cientistas. Entretanto, as ações da personagem ficam reprimidas até o momento chave, o que provoca uma sensação de que toda sua transformação se dá de uma hora pra outra. Com isso, diante do clímax, o público se surpreende com a postura firme e agressiva de um homem até então submisso e medroso.

Como visto, a idéia por trás da obra é bem interessante. No entanto, a execução não faz justiça ao argumento que pretende defender. O maior problema encontra-se no ritmo extremamente lento da narrativa, que cansa o espectador em vários momentos. Em vez de prepará-lo para a sequência crucial da história, aumentando paulatinamente a atmosfera de tensão, opta-se por um ritmo demorado, com poucas ações do casal principal. Há uma exceção, uma cena no meio do filme, que quebra essa lentidão de que falo, porém penso que ela poderia ser muito melhor trabalhada e  influenciar mais a história.

No final, tive a impressão de ter um visto uma obra inteligente e ambiciosa, mas falha na execução. Ao meu ver, um filme deve sempre prender a atenção do espectador, independente da temática. É claro que o Cinema não possui o entretenimento como única função, longe disso! No entanto, não há como negar que, para uma obra cinematográfica provocar reflexões e mudanças na pessoa que a assiste, é necessário atrair o público para história. Caso contrário, um bom argumento vira algo mediano. É exatamente o caso de “Sob o Domínio do Medo”.

Nota: 5

Sob o Domínio do Medo (Straw Dogs, 1971)

Direção: Sam Peckinpah

Roteiro: Sam Peckinpah e Zelag Goodman (baseado em romance de Gordon Williams)

Elenco: Dustin Hoffman, Susan George, Peter Vaughan, Jim Norton, Ken Hutchison

Deixe um comentário

Arquivado em Filmes

Dogville

Por Daniel Senos

‘’Alimente-as e comerão até explodir’’.

Um engano pegar ‘’Dogville’’ para ver como um simples filme de entretenimento. Logo nos primeiros momentos, somos apresentados a uma obra sem cenário, sendo as casas definidas por riscos de giz no chão, um fundo preto, e a única indicação de mudança de tempo e clima é a luz artificial, que se alterna ao longo do filme. Há uma narração rolando na voz de John Hurt, o que dá um toque um tanto fabuloso, diga-se de passagem, aliado a uma música totalmente acessória, que não se destaca em nenhum momento do filme. Em muitos, esse impacto inicial causa uma estranheza, outros ficam fascinados pela ausência de cenário, enfim se deparam com um dos filmes mais complexos e pode-se até dizer, humano, dos últimos tempos.

É válido, antes de mais nada, traçar um breve perfil de Lars Von Trier, um diretor influente e bastante polêmico. Junto com seu conterrâneo Thomas Vintenberg, fundou o projeto ‘’Dogma 95’’ um dos movimentos artísticos mais importantes desde a Nouvelle Vague. Através de seus tópicos tinha como objetivo combater a ‘’cosmetização’’ dos filmes, se opondo assim ao cinema como obra de arte. O projeto, radical, possui uma série de restrições que devem ser seguidos para que o filme receba o certificado Dogma 95 (exibido no começo de todo filme do movimento), tais como a restrição às técnicas de filmagens, só podendo ser usadas as câmeras de mão, não uso de iluminação artificial, restrições quanto à temática do filme, etc.

Em ‘’Dogville’’ nota-se claramente a influência do Dogma 95 na notória ausência de cenário e de objetos, que só são identificados pelos efeitos sonoros. Trier tenta mostrar que, para um filme ser bom não são precisos grandes recursos, apenas como saber transmitir a mensagem desejada. Talvez tudo isso crie um abismo entre o espectador e a obra, pois gera bastante incompreensão e desconforto em certos momentos, mas o enfoque mesmo está no desenrolar da história, principalmente nos diálogos e nas interpretações.

Basicamente, Grace chega à pequena cidade foragida de gangsteres e procura abrigo nesta. Tom a encontra e a acolhe, invocando todo o altruísmo dos habitantes da cidade para que estes aceitem a pobre foragida. A forasteira ofereceu ajuda braçal em troca do acolhimento dos cidadãos, e é a partir daí que a trama se desenrola. Os habitantes inicialmente não precisavam da ajuda de Grace e ao serem interpelados por ela não sabiam o que designá-la para fazer. Vivia-se muito bem sem ela, mas logo começaram a arranjar trabalhos que antes eram considerados desnecessários de serem feitos apenas para ajudá-la.

No entanto, o que era para ser altruísmo se torna exploração da pior estirpe. Dogville mostra as suas garras, e os cidadãos começam a exigir cada vez mais de Grace. O diretor mostra uma visão bastante crua sobre a natureza humana. Até que ponto o ser humano consegue conter a sua vontade de poder sobre o outro para parecer cordial e gentil? É notório como as pessoas deixam de pedir a Grace favores e começam a vociferar ordens e agressões verbais. As personagens, antes gentis, deixam finalmente suas máscaras caírem e mostram como são em sua forma mais pura, sem hipocrisia e rodeios. Será mesmo a natureza humana tão egoísta e instintiva como mostrada no filme ou são as circunstâncias que fazem com que o ser humano se corrompa?

Interessante ressaltar que cada personagem da cidade possui uma peculiaridade, na qual Grace tem que se esforçar para contornar e ajudar da melhor forma possível, como a mulher que não consegue ir ao banheiro sozinho, o homem que possui dificuldade de estudos e cego que se recusa a admitir sua deficiência. Todos os atores tiveram que usar todo o seu potencial para prender o espectador junto à história, e a ausência de cenário fez com que toda a atuação soasse como um grande teatro, o que proporciona uma experiência única.

Provavelmente é um dos filmes que mais dividiu opiniões ultimamente. Há quem odeie ‘’Dogville’’ por achar pretensioso quanto ao seu experimentalismo. Particularmente acho um belo tratado sobre o ser humano e toda a sua meticulosidade, mostrado de uma forma tão direta por Lars Von Trier que é difícil, ao descerem os créditos, não parar durante um tempo e refletir sobre o que acabou de ser visto. Imperdível.

Nota: 10

Deixe um comentário

Arquivado em Filmes