Arquivo do mês: novembro 2010

Harry Potter e as Relíquias da Morte: Parte 1

Por Matheus Saboia

Faço parte da geração que cresceu lendo os romances e assistindo aos filmes da saga Harry Potter. Como tal, devorava os livros em poucos dias e costumava – ainda costumo, mas em menor intensidade – aguardar ansiosamente os longas, quando estes estavam prestes a serem lançados. Porém, sofro do mal, como grande parte dos fãs, de querer comparar as obras literárias com os filmes; tentando sempre detectar lacunas, importantes no livro e esquecidas na transposição para o cinema. Dessa forma, apesar de reconhecer a qualidade, por exemplo, dos episódios 3 (O Prisioneiro de Askaban) e 6 (O Enigma do Príncipe), tais películas sempre me pareceram incompletas de alguma forma; como se faltasse mais espírito nas adaptações. Todavia, ao assistir “Harry Potter e as Relíquias da Morte: Parte 1″ (HP 7.1), me deparei com uma adaptação madura, fiel ao romance de JK Rowling e bem desenvolvida pelo cineasta David Yates. Em suma, preencheu tudo aquilo que, a meu ver, faltava nos capítulos anteriores.

Em HP 7.1, a introdução feita antes dos créditos iniciais ilustra com clareza o teor pesado e melancólico do que está por vir através de duas tomadas. A primeira delas mostra Hermione alterando a memória de seus pais trouxas, para que estes a esqueçam – e não sofram com sua ausência – e, ao mesmo tempo, fiquem protegidos de um possível (e provável) ataque dos Comensais da Morte. Já a segunda exibe os Dursley fugindo às pressas da famosa casa na Rua dos Alfeneiros. Ambas as cenas introdutórias, interessantes por si só, ainda são fortalecidas pela música “Obliviate”, uma das faixas da excelente trilha sonora de Alexander Desplat.

Neste sétimo capítulo, vemos o mundo bruxo absolutamente dominado por um regime de exceção, tendo como grande líder o perverso Voldemort. O paralelo com os estados totalitários do século XX é evidente, basta constatar algumas características do novo Ministério da Magia. Se antes tal órgão era responsável, dentre outras coisas, pela convivência harmônica entre bruxos e trouxas, agora ele prega a violência e a aniquilação de todos os indivíduos considerados impuros (leia-se “não bruxos”). Lembrando muito o cenário descrito por George Orwell em “1984”, a nova gestão estimula a denúncia, incentiva o ódio através de propagandas e se utiliza de uma poderosa política de vigilância, com o intuito de que todos os atos da vida dos bruxos sejam conhecidos pelo aparelho estatal. Nesse ponto, nada mais elucidativo do que a declaração de Pius, ministro da magia e seguidor de Voldemort, que diz: “Vocês não tem nada a temer se não tiverem nada a esconder”.

Diante desse contexto macabro, Harry e seus amigos enfrentarão uma tortuosa jornada em busca das Horcruxes (fragmentos da alma de Voldermort), única forma de destruir o vilão. O foco dessa primeira parte é prioritariamente explorar essa viagem dos heróis; mostrá-los arquitetando o plano final, ao passo que são obrigados a fugir constantemente dos Comensais da Morte que estão no seu encalço. Por conta disso, algumas pessoas poderão argumentar que o filme apresenta uma narrativa lenta, com pouca ação. Refuto esse tipo de pensamento, tendo em vista que a finalidade – tanto da primeira parte do livro quanto do filme – é exatamente estudar o psicológico dos três protagonistas, evidenciando de que forma o terror da situação modifica o comportamento de cada um deles. Lidar com o medo de perder alguém próximo e de enfrentar um inimigo mais poderoso, cientes de que os resultados das suas ações são a única forma de frear o ímpeto de Lord Voldemort: esse é o grande fardo carregado por Harry, Rony e Hermione.

O supracitado amadurecimento da trama é acompanhado por um desenvolvimento como cinema também. David Yates sabe trabalhar cada momento do seu filme, aproveitando ao máximo o potencial do material rico que tem em mãos. Difícil não se deliciar com a sequência no Ministério da Magia em que o trio principal, transfigurado em três bruxos aleatórios, parte em busca de uma Horcrux. Acompanhamos atentamente cada movimento das personagens, temendo que eles sejam descobertos; porém essa atmosfera de tensão é eficientemente combinada com passagens cômicas, oriundas da estranheza que sentimos ao testemunhar os três protagonistas em corpos diferentes, sendo interpretados por atores distintos e desconhecidos. A ótima condução de Yates em tal cena é ainda valorizada pela direção de arte e pelos efeitos especiais, que compõem um Ministério da Magia absolutamente fantástico; sendo, portanto, um genuíno prazer assistir a uma cena tensa, interessante e belíssima em termos visuais.

Da mesma forma, gostei bastante da maneira como o cineasta conseguiu passear por diferentes gêneros dentro do seu longa. Durante a cena em Godric Hollows, por exemplo, é interessante perceber como o silêncio foi utilizado para criar uma angustiante preocupação no público, estratégia essa comumente verificada em (bons) filmes de terror e suspense. Posteriormente, o elfo doméstico Dobby protagoniza o momento mais dramático e comovente dentre todos os filmes da série em uma tomada igualmente bem executada por David Yates. Alinhado a esse evidente domínio técnico, a obra ainda revela sensibilidade na parte em que Harry, ao ouvir uma canção sendo tocada no rádio, convida Hermione para uma dança e os dois, por alguns segundos, encontram na música uma válvula de escape para toda a angústia e tristeza que estão sentindo.

Como essa é a primeira vez que escrevo sobre Harry Potter, não posso me furtar a falar do elenco. Observar a nata do cinema britânico reunida nos filmes da saga é algo formidável; grandes nomes como Gary Oldman (Sirius Black), Ralph Fiennes (Voldemort), Maggie Smith (Minerva) e Alan Rickman (Snape) são apenas algumas ilustrações do caráter estelar da equipe. Não hesito em afirmar que esse time de atores é dos mais ricos que eu já vi no cinema. No entanto, é compreensível que as atenções se voltem para os jovens Daniel Radclife, Rupert Grint e Emma Watson, afinal  são eles os protagonistas da história. Se ao longo dos anos, o trio – principalmente Radclife – colecionou críticas a respeito de suas interpretações, o desenvolvimento dos atores neste filme é notório. Além de demonstrarem mais intimidade com seus papéis, a maior carga dramática  do longa possibilita um trabalho mais completo dos intérpretes, principalmente de Emma Watson que, sem dúvidas, é a grande destaque do trio.

Para concluir, queria expressar meu apoio à escolha de dividir o último livro em duas películas. Embora tal opção tenha sido certamente influenciada por questões financeiras, – afinal, Harry Potter é uma franquia extremamente lucrativa –  a divisão cria condições para que o conteúdo seja trabalhado com mais calma e fidelidade ao enredo original. Entretanto, não podemos esquecer que “Harry Potter e as Relíquias da Morte” é originalmente uma única obra e, portanto, esta primeira parte depende da continuação para alcançar o sucesso total. Como a espera é inevitável, finalizo a crítica, satisfeito com os resultados deste filme e, ao mesmo, esperançoso de que o capítulo final faça justiça ao universo fantástico criado por J. K. Rowling.

Nota: 8,5

Harry Potter e as Relíquias da Morte: Parte 1 (Harry Potter and Deathly Hallows: Part 1)

Direção: David Yates

Roteiro: Steve Klover (baseado no livro de J. K. Rowling)

Elenco: Daniel Radcliffe, Rupert Grint, Emma Watson, Jason Isaacs, Helena Bonham Carter, Ralph Fiennes, Alan Rickman, Michael Gambon, Imelda Staunton, David O’Hara, Robbie Coltrane, Bill Nighy, Tom Felton, Timothy Spall, Rhys Ifans, Ivana Lynch, Toby Jones

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A Casa dos Mortos

Por Daniel Senos

De uma forma geral, a realidade manicomial já está entranhada no senso comum da sociedade. Mesmo no cinema, é comum vermos cenas de aplicação de eletro-choque e maus tratos extremos a portadores de doença mental, isolados em órgãos hospitalares ou judiciais. Os julgados doentes através do laudo médico são execrados do convívio social e submetidos a tratamentos diversos em ambientes que muitas vezes não possuem nenhum tipo de infraestrutura. A Reforma Psiquiátrica surgiu para colocar um fim a esses  absurdos que acontecem em hospitais psiquiátricos, mas a verdade é que ainda existem instituições que atuam dentro dessa lógica.

‘’A Casa dos Mortos’’, dirigido pela antropóloga Débora Diniz e inspirado no poema do interno Babu (que também narra o filme) denuncia essa realidade. O documentário se passa no Manicômio Judiciário de Salvador e se desenvolve primordialmente das falas dos presos. São eles que protestam e que apontam todos os absurdos que estão sofrendo dentro do manicômio. É o momento que encontram para desabafarem sobre o sofrimento que cada um vem passando em meses e anos, muitos anos.

O filme é estruturado em três partes, separadas pelos versos de Babu que introduzem tópicos relevantes à realidade em uma instituição desse tipo.No manicômio judiciário encontram-se as pessoas que são execradas do sistema, que simplesmente os abandona em tais instituições. A perda progressiva de laços sóciais com parentes e amigos externos é clara e as mortes lá dentro, nas palavras de Babu, são ‘’sem batidas de sino’’, ou seja, tratadas como banais e irrelevantes.

‘’das overdoses usuais e ditas legais’’, Babu escreve e o filme nos mostra. Laudos feitos pelos médicos, que simplesmente massacram os internos com quantidades altas de drogas para dopar os internos. Onde está a proposta de recuperação de um detento desses locais? Resume-se em overdoses diárias que deixam os presos dopados e fora da realidade, a fim de manter o controle de uma situação. Afinal, quem se importa com um doente mental criminoso?

A perda de identidade em cárcere privado é um fenômeno marcante. Privado de suas próprias roupas, de sua liberdade de ir e vir, vítima de maus-tratos e submetido a controles compulsórios e overdoses constantes, o detento perde gradativamente sua própria individualidade. A morte chega a esses quando ainda estão vivos, como afirma seu Almerindo, que declara à enfermeira que está morto. ‘’das vidas sem câmbios lá fora’’, nas palavras de Babu.

É chocante ver como a instituição pública é precária em termos estruturais. Camas espalhadas por corredores, paredes lotadas de infiltrações e pichadas. Vemos nesse incrível documentário como é a realidade de uma instituição que nada mais é que o retrato de como o sistema se organiza para manter o controle. É muito mais fácil lidar com as diferenças/problemas execrando-as do convívio social. É o tal do biopoder, que Foucault explicou uma vez: permite viver a quem interessa o sistema, deixa morrer a quem não é considerado importante. Afinal, ‘’é que aqui é a casa dos mortos’’.

”E, ainda sobre as 3 cenas:
são 3 cenas de um mesmo filme-documentário:
Cena 1, das mortes sem batidas de sino;
Cena 2, das overdoses usuais e ditas legais;
Cena 3, das vidas sem câmbios lá fora
– que se reescrevam, então,
Os Infernos de Dante Alighieri;
mas, aqui é a realidade manicomial!

Isto é um veredicto!
– tomara que fosse um ultimatum
à casa dos mortos!”

Babu, internado 12 vezes em manicômios judiciários

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Twin Peaks

Por Daniel Senos

Sou um fã assumido das obras de David Lynch, desde as mais excêntricas como ‘’Império dos Sonhos’’ e ‘’Eraserhead’’ como seus filmes mais ‘’normais’’ como ‘’História Real’’ e ‘’O Homem Elefante’’. Creio que seja um dos cineasta mais inovadores dos últimos tempos por elevar a linguagem cinematográfica a um extremo que poucos conseguiram. Alguns filmes seus exploram ao máximo a capacidade sensorial de cada um (e aqui corro o risco de cair no velho chavão artístico ‘’essa obra é pra ser sentida, e não entendida), intrigando com a sua capacidade de criar personagens e ambientes bizarros. Mas deixemos para um momento posterior uma postagem mais elaborada sobre o diretor.

Venho aqui relatar a minha experiência com a série ‘’Twin Peaks’’, série criada por David Lynch e Mark Frost. Trata-se de uma trama passada na cidade fictícia que leva o mesmo nome da série, em que uma jovem chamada Laura Palmer é brutalmente assassinada. Até aí temos uma história normal (e até batida), porém não se pode esquecer que temos uma obra com a assinatura de Lynch.

A cidade é pequena, dessas de interior que são aparentemente pacatas, habitadas por pessoas cordiais e receptivas. Porém, à medida que a história se desenrola os ‘’podres’’ de cada um começam a surgir. As personagens possuem cada um uma bizarrice com a marca Lynch, o que os torna intrigantes e cativa quem assiste. Cooper, agente do FBI que é enviado para investigar o crime é uma personagem curiosa: conversa com um gravador, o qual chama pelo nome de Diane e faz uso de suas experiências oníricas como pistas para desvendar o mistério de Laura Palmer.

Vemos o talento de Lynch ao transformar uma história banal no universo cinematográfico/televisivo em uma trama rica, cheia de mistérios e em alguns momentos até assustadora. Há de se dizer também que a série é marcada por belíssimas interpretações, que sustentam toda uma atmosfera bizarra. As personagens vão se desenvolvendo e se tornando profundos e misteriosos, enquanto o protagonista Cooper tenta investigar as evidências do assassinato por meio de seus métodos diferentes (sonhos, pressentimentos, encontros bizarros/inusitados).  Vale a pena conferir, a série tem somente 2 temporadas (30 episódios) e mais um filme, ‘’Twin Peaks: Os Últimos Dias de Laura Palmer’’), a imersão na pequenina cidade fictícia é certa!

Abaixo, segue a belíssima introdução do seriado e um dos sonhos do Agente Cooper, só pra despertar a curiosidade!

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Stalker

Por Daniel Senos

Agora o verão se foi
E poderia não ter vindo
No sol está quente,
Mas tem de haver mais.

Tudo aconteceu,
Tudo caiu em minhas mãos.
Como uma folha de cinco pontas
Mas tem de haver mais.

Nada de mau se perdeu,
Nada de bom foi em vão…
Uma luz clara ilumina tudo
Mas tem de haver mais.

A vida  me recolheu,
À segurança de suas asas.
Minha sorte nunca falhou,
Mas tem de haver mais.

Nem uma folha queimada,
Nem um graveto partido.
Claro como um vidro é o dia…
Mas tem de haver mais.’’

Arseni Tarkovsky

Bastante difícil escrever sobre qualquer obra do mestre Tarkovsky, visto que a maioria possui um leque de interpretações tão grande que seria grosseiro se restringir a apenas um ângulo. ‘’Stalker’’ não foge dessa realidade do diretor, é um filme com tantos detalhes e mensagensque provavelmente seria um prato cheio para um trabalho mais aprofundado.

Uma vez Tarkovsky, ao ser perguntado sobre o significado dos seus filmes em uma entrevista, respondeu com uma metáfora que sintetiza muito do que seus filmes tentam passar: “Você olha um relógio. Ele funciona, mostra as horas. Você tenta compreender como ele funciona e o desmonta. Ele não anda mais. E, no entanto essa é a única maneira de compreender…”

‘’Stalker’’, antes de mais nada, é um tratado sobre o interior do ser humano, suas crenças e o poder da fé. As personagens que se arriscam a percorrer a Zona em busca do quarto dos desejos são apenas nomeados como ‘’Professor’’ e ‘’Escritor’’, e junto com o guia ‘’Stalker’’ formam uma tríade curiosa com visões diferentes sobre a vida e que são exploradas nos diálogos do filme: ‘’Professor’’ seria a face científica, ‘’Escritor’’ a face artística e ‘’Stalker’’ a face espiritual. Ao longo do filme são feitos vários questionamentos sobre a própria Zona, os motivos que levaram cada um até essa empreitada, os mistérios que envolvem o lugar e muito mais.
A Zona, onde toda a trama se desenvolve, é um lugar que, após uma suposta queda de meteoritos foi isolada pelo exército, embora este não tenha coragem de entrar nesta. Com o acontecido, fenômenos estranhos dominaram o local, e apenas pessoas chamadas ‘’Stalker’’ conseguem contornar esses acontecimentos e guiar as pessoas até o lendário Quarto, onde qualquer desejo seria atendido.

À medida em que adentram a Zona, as personagens se deparam com questões que exploram todo o caráter filosófico e espiritual do ser humano. Os diálogos, quando acontecem, são profundos e levam a uma reflexão profunda, justamente por expor três pontos de vista diferentes, já citados no texto, o que torna o roteiro ainda mais rico e intenso. Vale ressaltar que Tarkovsky introduz poemas de seu pai nos diálogos, passagens que dão um tom ainda mais abstrato a obra.

O ritmo lento do filme também é característico do diretor. Com uma belíssima fotografia, cenas como a das personagens percorrendo os trilhos de trem para ir até a Zona e a cena em que as personagens entram em uma sala com aspecto desértico na própria Zona refletem toda a beleza estética da obra de Tarkovsky. Talvez as seqüências de cenas lentas tenham sido intencionais, como um convite a quem estiver assistindo refletir sobre as próprias indagações das personagens.

A trilha sonora é misteriosa, composta por um tema melancólico que dá um charme especial à Zona (um lugar repleto de vegetação e já colorido, em contraste com as cenas que se passam fora dela). A música nos dá uma impressão de que, quanto mais as personagens se locomovem na Zona, mais eles estão envoltos pela aura misteriosa dos acontecimentos dela.

O filme foi rodado nas instalações de uma usina nuclear abandonada, repletas de radiação. O resultado foi uma das mais belas obras já filmadas na história do cinema, reflexiva, sensível e de uma beleza surpreendente. Porém, Tarkovsky e sua equipe pagaram um alto preço: alguns anos depois, o diretor e sua equipe foram morrendo de câncer, causado pela exposição à radiação do local de filmagem, o que só aumentou a atmosfera misteriosa que gira em torno do filme. Impossível assistir e não ficar ao menos com a cena final, provavelmente uma das mais enigmáticas dessa grande obra. Imperdível!

Nota: 10

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(500) Dias com Ela

Por Matheus Saboia

Dizer que as comédias românticas atuais passam por um período de decadência, usando como argumentos a previsibilidade e o excesso de fantasia, é um grande clichê. O fato é que tais filmes sempre fizeram sucesso e continuarão fazendo, pois há um público fiel ao gênero, formado não somente por mulheres. Dessa forma, é natural que os grandes figurões de Hollywood utilizem uma fórmula de sucesso para obter lucro. No entanto, é ótimo quando uma produção consegue agradar ao grande público e, ao mesmo tempo, oferecer um roteiro original e com mais realismo.

Joseph Gordon-Levitt interpreta Tom Hansen, um jovem romântico que acredita plenamente no amor à primeira vista, em encontrar a pessoa certa, etc. Por outro lado, Summer Finn (Zooey Deschanel) é cética em relação ao amor; descrente de qualquer forma de compromisso, ela procura aproveitar o momento, não se prendendo a nenhum relacionamento. Os dois se conhecem no trabalho, um escritório onde se produz cartões românticos e de congratulações; e a partir daí, ambos iniciarão, cada um com a sua expectativa, uma relação amorosa.

O roteiro emprega a contagem de dias como forma de narrativa, porém não a faz de modo linear. Sua grande sacada foi intercalar momentos iniciais e finais do caso entre Tom e Summer, de modo a evidenciar as diferenças entre o encantamento do casal no princípio e a desilusão ao término da relação.

Como já foi dito, recursos narrativos originais e referências são largamente utilizados em “500 dias com ela”. Por exemplo, a animação e confiança de Tom, após a primeira noite de sexo com Summer, é traduzida, quando o rapaz olha para o espelho e vê a figura de Hansolo (Harrison Ford, Star Wars) no reflexo. Da mesma forma, é curioso que Tom procure filmes europeus, mais precisamente franceses e escandinavos, em momentos de tristeza, e se transporte para a tela. Todavia, nada chama mais a atenção do que uma sequência em que o diretor divide a tela em “Expectativa” e “Realidade”, estabelecendo o contraste entre as situações projetadas e idealizadas na cabeça de Tom e a realidade bem menos agradável com a qual ele se depara.

O humor também está presente na obra, porém ele aparece incorporado a própria história. O que eu quero dizer, é que não há uma pausa para piadas, a veia cômica de “500 dias com ela” se manifesta naturalmente. Gosto muito, por exemplo, de uma cena em que Tom, quando perguntado sobre o motivo que o levou a largar a carreira de arquiteto para trabalhar na elaboração de cartões festivos, responde: “Acho que pensei, porque fazer algo descartável como um prédio, quando posso fazer algo eterno como um cartão.”. Essa cena em particular possui uma boa carga dramática, o que não impede, como vimos, que o humor se manifeste.

Se o filme possui um ponto fraco, este encontra-se na performance de Zooey Deschanel. É inegável que Summer é uma personagem interessante; seus gostos musicais, seu descompromisso na relação e seu comportamento irreverente são apenas algumas das características . Entretanto, a atriz oferece um desempenho aborrecido e tedioso, sendo difícil entender o porquê da personagem exercer tanto fascínio sobre Tom. Durante o filme, fiquei imaginando o que uma intérprete mais talentosa teria feito com o papel. Não tenho dúvidas de que uma atriz como a Natalie Portman engrandeceria ainda mais a história, tornando a figura de Summer muito mais cativante.

Devo confessar que ao assistir “500 dias com ela” pela primeira vez nos cinemas, me senti um pouco decepcionado. Isso porque eu esperava assistir uma obra prima sobre relacionamentos; um filme do calibre de “Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças” e “Antes do Pôr-do-Sol”. De fato, assim como no filme, a expectativa ficou distante da realidade. Entretanto, ao revisitar a obra, percebi que “500” dias com ela” é extremamente eficiente naquilo que se propõe; possui uma abordagem narrativa original, é bem realizado e, sobretudo, não subestima a inteligência do espectador.

Como não podia deixar de acontecer em uma comédia romântica, o final feliz também é verificado. Se durante a projeção, nós testemunhamos os desencontros entre Tom e Summer (Verão), a conclusão apresenta o protagonista a um possível novo amor, que atende pelo nome de Autumn (Outono). O final chega, os créditos descem, e o que nos resta é imaginar como será a nova estação da vida de Tom.

Nota: 8

(Leia também a outra crítica do filme)

500 dias com ela (500 days of Summer, 2009)

Direção: Marc Webb

Roteiro: Scott Neustadter e Michael H. Weber

Elenco: Joseph Gordon-Levitt, Zooey Deschanel, Chloe Moretz, Geoffrey Arend

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The Walking Dead

Por Matheus Saboia

É certo que as séries norte-americanas estão vivendo uma fase áurea; o emprego de recursos gigantescos, atores consagrados migrando para a televisão e o sucesso de público são alguns sintomas do engrandecimento de tais programas. Diante desse quadro, em que as séries adquirem cada vez mais contornos cinematográficos, me motivei a falar, pela primeira vez aqui no blog , sobre elas. O objeto do texto é a mega produção “The Walking Dead”, que estreiou domingo (31/10) nos EUA e promete ser uma série de sucesso.

Ambientado em um mundo destruído, totalmente dominado por criaturas semi-mortas, – os famosos zumbis – a história aparentemente será centrada na luta pela sobrevivênca daqueles que não foram afetados pela epidemia. Convenhamos que a temática dos zumbis, apesar de estar na moda, já deu o que falar, tendo sido inclusive assunto para sátiras recentes, tais como os excelentes “Zumbilândia” e “Todo Mundo Quase Morto”.

No entanto, “The Walking Dead” possui um diferencial e ele foi suficientemente forte para atrair os holofotes. O fato é que o respeitado cineasta Frank Darabont está por trás do projeto, assinando seu nome como produtor e diretor do episódio piloto. Além da carreira de Darabont, responsável pelas obras primas “Um Sonho de Liberdade” e “À Espera de um Milagre”, ser recheada de acertos, o cineasta já retratou uma situação global apocalíptica no filme “O Nevoeiro”, o qual considero ótimo também. Pois bem, essa credibilidade criou uma expectativa enorme em torno da estréia, verificada até mesmo no Twitter, onde o termo “walkingdead” tem sido um dos mais digitados.

Após assistir o primeiro episódio, fiquei com uma boa impressão. A produção é caprichada e tem uma preocupação visível com os efeitos especiais ao confeccionar os zumbis. A série, todavia, também é pautada no drama dos sobreviventes, não se limitando aos elementos de tensão para gerar terror e suspense. Pra finalizar, como fã confesso de “Lost” e “Dexter”, acho bem difícil que “The Walking Dead” chegue ao patamar dessas duas, porém, correndo o risco de queimar minha língua, não posso deixar de congratular o projeto pelo bom início e pelo futuro promissor.

Aos interessados, segue abaixo um trailer muito bem feito que eu encontrei:

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