Arquivo do mês: dezembro 2010

Forrest Gump

Por Matheus Saboia

Entre os variados tipos de filme, existem aqueles, raros, capazes de marcar a pessoa que o assiste, independente da idade, nacionalidade, etc. No caso de Forrest Gump, o filme consegue se comunicar com diferentes tipos de pláteia, desde um público mais novo, que se emociona com o drama da personagem título, até o espectador mais maduro, capaz de identificar qualidades cinematográficas no longa e estabelecer correlações entre a trajetória do protagonista e alguns fatos cruciais da história norte-americana.

Sentado num ponto de ônibus, o próprio Forrest Gump irá narrar sua história, tendo como ouvintes os diversos transeuntes que por ali passam à espera de um meio de transporte. A platéia de Gump é composta por  pessoas distintas, – trabalhadores, mães de família, aposentados, curiosos, etc. – que reagem de maneira diferente ao que está sendo contado pelo protagonista. Os mais céticos respondem com zombarias, os apressados ouvem com desatenção e, como não poderia deixar de ser, existem aqueles poucos que se interessam e agregam alguns ensinamentos proferidos por Forrest. Me insiro neste último grupo.

Rejeitado e discriminado desde criança, devido ao seu intelecto reduzido e à uma deficiência nas pernas que o impedia de andar normalmente, Forrest encontrava na mãe (Sally Field) seu maior incentivo na vida. Até conhecer Jenny, uma garota que, assim como ele, possuía seus próprios pesadelos, gerados em grande parte pelo pai, que a abusava sexualmente. Embora incapaz de compreender o drama de Jenny, que em nenhum momento toca no assunto, ele acaba representando um porto seguro para a amiga, sendo aquele raro tipo de pessoa sempre disposto a confortá-la. Seu sentimento por Jenny, caracterizado pela combinação de uma amizade incondicional com um profundo e sincero amor, durará décadas e será a grande força motriz na vida de Gump.

Após se formar na faculdade, o qual conseguiu ingressar devido ao seu talento no futebol americano, Forrest opta por se alistar no exército e, com isso, acaba indo lutar na Guerra do Vietnã. A subserviência e a dedicação integral do protagonista fazem com que ele se adapte bem à dura realidade do treinamento, sendo inclusive chamado – perceba  a  ironia – de gênio pelos oficiais superiores. É também no conflito que duas personagens entrarão para sempre em sua vida, deixando marcas. O primeiro deles é Bubba, um rapaz negro fanático por camarões, que possui o simples sonho de comprar um barco e viver do pescado. Inofensivo e levemente perturbado, como Forrest, os dois iniciam uma relação de amizade e proteção mútua naquele contexto de barbárie. O outro personagem é o complexo Tenente Dan Taylor, homem de grande autoridade, cujas ações e convicções são objetos de sensíveis transformações ao longo do filme. Pela naturalidade e paixão com a qual Gary Sinise dá vida ao tenente, o ator foi merecidamente indicado ao Oscar de ator coadjuvante.

Como que por acaso, Forrest Gump acaba desfilando sua débil ingenuidade em capítulos notórios da história norte-americana. Nesse ponto, os efeitos visuais revelam-se absolutamente competentes, na medida em que eles introduzem Forrest às filmagens de época, promovendo seu encontro e até mesmo diálogos com importantes figuras, tais como os presidentes John F. Kennedy, Lyndon Johnson e Richard Nixon; o governador segregacionista George Wallace, e até mesmo com o músico John Lennon. Por mais que tenhamos ciência do caráter fictício desses encontros, a tecnologia empregada no longa os torna críveis e são, portanto, indispensáveis para a proposta do filme.

Ainda no que tange ao passeio que Forrest faz pela história do seu país, o roteiro investe no humor ao chocar a natureza de tais episódios com a equivocada percepção de mundo do protagonista. Podemos citar, por exemplo, o momento em que é mostrada uma gravação do emblemático dia em que os negros garantiram acesso às universidades públicas, quebrando as políticas de segregação. Diante desse contexto, o perdido universitário Forrest Gump ouve de um aluno racista que “macacos” estão invadindo a instituição; sua resposta imediata traduz o seu grau de incompreensão: “Macacos?! Quando tem bicho em casa, mamãe espanta com vassoura”.

Da mesma forma, impossível não lembrar da cena em que Gump, recém chegado da guerra com status de herói, participa acidentalmente de um discurso antibélico promovido pela Contracultura, que clamava pela retirada das tropas estadunidenses do Vietnã. Com sua farda militar, a personagem faz um breve pronunciamento sobre a insensatez do conflito. Outros marcos como o Movimento dos Panteras Negras, o caso Watergate e a Revolução Cultural de Mao Tsé Tung também estão presentes no filme, sendo de alguma forma vivenciados por Forrest.

Diante de tantos acertos, é relevante evidenciar alguns problemas na obra de Zemeckis. Em importante e original análise do filme, Helena Novais (ex-integrante do site Cineplayers) sustenta que, em “Forrest Gump”, a poesia da história, o carisma de Tom Hanks e o bom uso da técnica cinematográfica trabalham em prol do egocentrismo norte-americano. Segundo ela, a película funciona como um instrumento de alienação, pois favorece uma possível compreensão e, conseqüentemente, aceitação das políticas intervencionistas estadunidenses. Além de legitimar o papel dos EUA como paladino da justiça e da democracia. Dessa forma, os problemas do filme não seriam exatamente falhas, tendo em vista que representam a verdadeira mensagem que o cineasta e os roteiristas pretendiam transmitir ao público, trocando em miúdos, a ideologia de dominação ianque.

Concordo parcialmente com a tese de Helena, apesar de considerar sua posição um pouco extremista. Assim como Novais, também enxergo uma certa propaganda da grandiosidade dos feitos daquele povo, no entanto acredito que os méritos cinematográficos alcançados afastam os supostos ideais da produção. Como entretenimento, e penso que assim devemos considerá-lo, o filme é um dos maiores clássicos do cinema moderno, e isso deve muito ao modo como Robert Zemeckis conduz o drama do protagonista e, sem dúvidas, ao desempenho icônico de Tom Hanks, que garantiu o seu segundo Oscar com este papel.

A película acabou sendo condecorada com seis estatuetas douradas, tendo como concorrentes os espetaculares “Um Sonho de Liberdade” e “Pulp Fiction”. Se é difícil, para mim, afirmar que a obra é merecedora de tantos prêmios, muito fácil é recomendar às pessoas que o assistam, uma vez que o filme é quase unanimidade entre os amantes do cinema. Fica, portanto, a dica para os que não viram e a sugestão para que os interessados revisitem o fabuloso destino de Forrest Gump.

Nota: 9

Forrest Gump (Forrest Gump, 1994)

Direção: Robert Zemeckis

Roteiro: Eric Roth (baseado no livro de Winston Groom)

Elenco: Tom Hanks, Robin Wright Penn, Gary Sinise, Mykelti Williamson, Sally Field

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Top 5 – Woody Allen

Por Daniel Senos

Woody Allen é, de fato, um dos grandes nomes da sétima arte. Com uma filmografia extensa permeada de obras-primas, o diretor já nos contou histórias de amor, homenagens, estudos sobre a personalidade e a condição humana e muito mais. Características como referências à literatura e à psicanálise já são marcas registradas de seu trabalho, traços esses que são alvos de críticas daqueles que não admiram a obra de Allen.

Particularmente sou fã de um cinema que consiga comunicar uma mensagem para o maior número de pessoas, e certamente um filme com excesso de referências culturais rebuscadas terão certa dificuldade nesse contexto. Porém não vejo isso no cinema de Allen: o fato é que, por mais que hajam muitas referências, elas estão na maioria das vezes tão entranhadas na trama dos roteiros que não é preciso ter lido Freud para rir das neuroses dos alter-egos do diretor. Acho que é exatamente esse o ponto de genialidade de Woody Allen, comunicar a cultura que de alguma forma é elitizada aos espectadores sem que haja necessidade desses conhecerem diversas obras.

Claramente influenciado pelo sueco Ingmar Bergman, o diretor explora temas como a morte e a culpa, por vezes de ângulos e referências diferentes, o que enriquece o seu legado enquanto cineasta. Woody Allen, então, inova ao tratar com seu humor característico e dinâmico temas explorados por Bergman em um tom mais melancólico e reflexivo.

Esse top 5 é somente uma lista dos filmes do diretor que mais me agradaram no momento e geraram certo impacto em mim. Nada de critérios cinematográficos e teóricos, apenas o bom e velho pitaco de um fã de Woody Allen. O objetivo é postar uma crítica para todos os filmes desse top posteriormente, logo cada filme eleito será seguido de um breve comentário, uma espécie de preâmbulo a um futuro texto.

5- A Outra

Marion (Gena Howlands) é uma escritora que resolve se isolar em um apartamento para se concentrar em seu novo livro. Seu apartamento é vizinho de um consultório de um psicanalista, que não possui um devido isolamento acústico, e logo Marion se interessa em escutar as sessões até que uma das pacientes, Hope (Mia Farrow) , lhe desperta grande interesse. A partir daí, começa a repensar a sua própria vida e o que havia construído até ali. O filme possui um clima mais dramático, sem o humor típico de Allen, mas merece destaque pela profundidade com a qual é abordado e pela grande influência de Bergman que se nota no desenvolver da obra.

4- Hannah e Suas Irmãs

Conta a história de três irmãs, Hannah (Mia Farrow), que exerce forte influência nas escolhas de suas irmãs mais novas, Lee (Barbara Hershey) e Holly (Dianne Wiest). Allen interpreta o ex-marido de Hannah, Mickey Saxe, um hipocondríaco que busca durante a obra um sentido para a sua vida (incluindo uma religião, com o desejo de trocar o judaísmo pelo catolicismo!). Um estudo interessante sobre as relações familiares, mais especificamente sobre irmãs, merece ser conferido tanto pelo neurótico personagem de Allen como pelos conflitos abordados no âmbito familiar.

3- Crimes e Pecados

Nesta obra, Woody Allen nos traz duas tramas distintas com o mesmo tema, o adultério. Na primeira, Judah Rosenthal (Martin Landau) tenta acobertar seu longo caso com a amante Dolores (Angélica Huston). Chega a uma encruzilhada, em que deve escolher entre terminar seu casamento ou tomar uma solução drástica, proposta pelo seu irmão. A outra história trata do cineasta Cliff Stern (Woody Allen), que tenta lançar um documentário sobre um professor de filosofia, mas é obrigado a aceitar o convite de fazer um programa humorístico de seu cunhado, Lester (Alan Alda) por falta de dinheiro. Ao mesmo tempo, se apaixona por Hallie Redd (Mia Farrow), que também é cobiçada por Lester. Ao explorar a questão do adultério, Woody Allen permite um exercício filosófico interessante, marcado inesquecivelmente pelo último diálogo do filme.

2- A Rosa Púrpura do Cairo

Provavelmente umas das mais belas obras em homenagem ao cinema, A Rosa Púrpura do Cairo traz toda a inocência de Cecília, uma garçonete cinéfila que, ao ver sucessivas vezes o filme homônimo, presencia a fuga do protagonista deste, Tom Baxter, para o mundo real. A partir daí, os dois começam um romance, enquanto a escapada da personagem do filme para o nosso mundo gera uma crise entre os responsáveis pelos cinemas que o exibiam. Curto, divertido e romântico, uma belíssima homenagem à sétima arte.


1-  Annie Hall

(Clique aqui para ler a crítica)

Menção Honrosa: Manhattan


Belíssima homenagem à terra do diretor, ‘’Manhattan’’ é daqueles filmes que possuem cenas memoráveis, repleto de referências a escritores, artistas e pensadores antigos e modernos e piadas rápidas com temática filosófica e religiosa. Muitos ficam perdidos em meio à tanta intelectualidade, mas a fotografia e a mensagem final do filme são maiores do que a intelectualidade por si só. Todo em preto e branco e com trilha sonora de George Gershwin, a cidade é colocado como a protagonista de toda a história. Allen interpreta Isaac, um roteirista de televisão que namora uma mulher de 17 anos (ele tem meros 42 anos de idade) que posteriormente se envolve com Mary (Diane Keaton). Mary era amante de seu amigo, o jornalista Yale (Michael Murphy) e a partir daí a história se desenvolve em meio a cenas belíssimas na Manhattan preto e branco.

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