Arquivo do mês: janeiro 2011

Guerra ao Terror

Por Daniel Senos

Sempre tive um pé atrás com filmes que tratam de assuntos relacionados a guerra. Assim como a comédia romântica, é um gênero que já está bastante desgastado pela quantidade de títulos que exploram diversos conflitos que aconteceram, acontecem ou mesmo fictícios. Enfim, particularmente eu procuro obras que possuam alguma espécie de diferencial, que não sejam somente um tiroteio desordenado, com leves pinceladas de momentos emocionais superficiais. Filmes que dão ênfase ao lado psicológica e emocional dos soldados, como este exemplar, merecem ser vistos justamente porque mostram o que a guerra é capaz de fazer com quem se submete a ela.

Com a premissa ‘’A guerra é uma droga’’, ‘’Guerra ao Terror’’ começa em grande estilo, com direito a efeitos soberbos e uma câmera lenta muito bem utilizada, marcando o evento que ocasiona o desenvolvimento da trama. O sargento Matt Thompson (Guy Pearce) é morto durante uma operação, em que a bomba é acionada devido a um descuido do Especialista Owen Eldridge (Brian Geraghty), que não atira a tempo no portador do dispositivo que aciona o explosivo. A partir deste momento, entra em cena o sargento William James (Jeremy Renner), que assume a liderança do grupo.

Há uma contagem dos poucos dias que faltam para que os militares voltem para casa e o novo líder só faz com que esses pareçam um inferno. O personagem parece não gostar muito de trabalhar em equipe, o que angustia principalmente o Sargento JT Sanborn (Anthony Mackie), que reclama e troca ofensas com o oficial. Temos aqui um perfil interessante da equipe: o sargento Willian James, experiente de guerras, diz não querer substituir o líder passado e age de forma não acolhedora e até com uma atitude não coerente com os princípios do exército, de trabalho em equipe. O sargento JT Sanborn bate de frente diversas vezes com o novo líder, por considerá-lo insensato e pela proximidade da data de seu retorno aos EUA. O especialista Owen ainda é assombrado pelo erro que ocasionou a morte de seu companheiro e se submete mais facilmente com a personagem de Jeremy Jenner, provavelmente pela necessidade de se sentir acolhido por uma figura de liderança.

O especialista Owen Eldridge ainda é bastante explorado no filme, pelo seu medo da própria situação infernal no Iraque, onde qualquer objeto na rua poderia ser uma bomba prestes a ser acionada e pelo deslize com o companheiro. As conversas com o psicólogo e suas atitudes em campo de batalha refletem o grande medo que todo soldado possui, mas que talvez por ser o mais novato da equipe deixe transparecer mais: o medo de não voltar para casa, de simplesmente desaparecer em uma explosão e se perder entre as areias do Iraque.

O Sargento JT Sanborn tenta ao máximo disfarçar o que sente, apenas demonstrando raiva pelo líder da equipe. Porém seus sentimentos acabam vindo a tona quando a situação aperta e já não há como ocultá-lo.

A personagem de Jeremy Jenner, à medida que o filme se desenrola, mostra que não é somente uma figura egoísta e viciada em adrenalina, cuidando de sua equipe (na excelente cena do deserto, onde há um conflito e o sargento oferece suco a JT Sanborn e tranqüiliza Owen) e mesmo confraternizando com eles. Vemos então a desconstrução da personagem militar, que abdica de suas emoções no campo de batalha, para um ser humano atormentado pela realidade cruel da guerra. Cenas como a que William dorme com o capacete de proteção antibombas ou a que liga o chuveiro sobre sua cabeça só mostram como a guerra afeta o lado emocional desses militares.

Durante a confraternização, JT Sanborn descobre uma curiosa caixa lotadas de pedaços de bombas. Ao perguntar a seu chefe, este explica que são objetos que quase tiraram a sua vida. Interessante notar que a grande fruição de William James é se expor a essas situações extremas e sair vivo delas, levando troféus que simbolizem a sua vitória.

Como a premissa inicial nos disse e é possível notar, Willian James é um militar distinto de seus companheiros. Trata-se de um viciado em guerra, alguém que já não se vê fora de uma zona de conflitos, de situações de vida ou morte.Fazer compras num super mercado ou passar o fim de semana com a sua família já não é mais o suficiente, como deixa marcado no diálogo que tem com o seu filho. Há apenas uma coisa na vida que ele realmente se importa, que ele diz ter amor: desarmar bombas.

Nota: 9

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Blog de Ouro – Segunda Fase

Por Matheus Saboia

Com uma semana de atraso, venho compartilhar os indicados ao Blog de Ouro e as minhas escolhas para a fase final da premiação. Não é necessário listar os indicados aqui, pois eles estão disponíveis de modo bem organizado na Sociedade Brasileira de Blogueiros Cinéfilos. Outra opção é baixar a lista dos concorrentes através deste link.

Quanto aos votos, aqui estão os meus favoritos:

Filme

A Origem

Direção

Christopher Nolan, A Origem

Ator

Leonardo DiCaprio, Ilha do Medo

Atriz

Carey Mulligan, Educação

Ator Coadjuvante

Niels Arestrup, O Profeta

Atriz Coadjuvante

Mo’Nique, Preciosa – Uma História de Esperança

Roteiro Original

A Origem

Roteiro Adaptado

Toy Story 3

Filme Nacional

Tropa de Elite 2

Animação

Mary e Max – Uma Amizade Diferente

Elenco

A Origem

Fotografia

Ilha do Medo

Montagem

A Origem

Direção de Arte

A Origem

Figurino

Alice no País das Maravilhas

Trilha Sonora Original

A Origem

Canção Original

We Belong Together, Toy Story 3

Maquiagem

Zumbilândia

Som

Ilha do Medo

Efeitos Visuais

A Origem

Quer saber mais sobre o Blog de Ouro? Leia aqui um breve texto falando um pouco sobre a premiação.

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Dançando no Escuro

Por Daniel Senos

A crueza do cinema do Lars Von Trier sempre me atraiu bastante: direto e conciso, o diretor trabalha com roteiros de grande impacto que exploram o lado emocional e psicológico de suas personagens (ou como costumam dizer, as ‘’mulheres de Trier’’). ‘’Dançando no Escuro’’ conta a história de Selma (Bjork), uma imigrante do Leste Europeu que veio para os EUA a trabalho, com o objetivo de pagar a operação para seu filho, que possui uma rara doença, sendo ela própria também portadora. A obra é um exemplo do cinema de Trier, seguindo conceitos do Dogma 95 (para uma breve explicação, consulte o texto sobre ‘’Dogville’’, do mesmo diretor) como a câmera de mão usada em diversos momentos da trama.

Em termos técnicos, o filme é primoroso: temos no filme a presença da tradicional câmera trêmula de Lars Von Trier que capta belos momentos, principalmente em momentos de espetáculo musical, como a cena do trem e a da fábrica; a fotografia é bastante bonita e merece seus créditos. As coreografias são bem trabalhadas e, aliadas à voz e talento da inspirada cantora-atriz do papel principal, fazem com que o filme tenha ótimos momentos em suas cenas musicais.

Não é possível citar o filme sem elogiar o ótimo desempenho de Bjork, que estava bastante a vontade para cantar e atuar, encarnando o papel com uma maestria surpreendente. Impossível não se emocionar com cenas de adversidades, em que a atriz passa com sucesso toda a emoção que está contida na personagem. A seqüência musical em que Selma começa a abdicar de sua visão e de todas as coisas materiais (‘’I’ve Seen it All) é de uma sensibilidade incrível. A personagem, à medida que sua visão lhe deixa, tenta se conformar com a sua situação, justificando que já viu um pouco de tudo no mundo, e que não há nada mais para ser visto, como a letra da canção nos mostra.

A estrutura do filme é interessante, intercalando cenas narrativas com cenas musicais. A paixão da personagem principal por filmes musicais é tanta que, como uma forma de escape da dura rotina que enfrenta na fábrica, ela se perde em devaneios, criando ‘’musicais internos’’ para conseguir agüentar a exaustão e as dificuldades. Em momentos difíceis, Selma se transporta para um musical, onde ela é a estrela e se delicia em sua doce fuga da realidade. De uma forma bastante peculiar, à medida que perde a visão, sua audição e percepção interna aumentam, e talvez para carregar esse fardo ela usa os diversos sons para criar seus musicais internos.

A beleza dos devaneios de Selma é contrastada de forma interessante com as cenas da realidade, que são filmadas pelas mãos do próprio diretor, trêmula, mostrando a perturbação enfrentada pela protagonista e a crueza de uma realidade que se mostra cada vez mais difícil para Selma Jezkova. As cenas musicais possuem uma beleza estética admirável, afinal, o que não parece perfeito e bonito no plano imaginário?

A crítica aos EUA é bem clara, com direito a closes instigantes à bandeira americana. A personagem principal é não só explorada pelo sistema do país, como é traída por um amigo americano e é injustiçada pelo Tribunal americano. Selma chega ao país, que ao invés de lhe oferecer oportunidades, acaba por devorá-la, levando a história a um desfecho bem triste. Embora haja controvérsias em relação a esse tópico, do filme ter um tom crítico aos EUA ou não (e olha que Lars Von Trier nunca esteve em solo americano), acredito que há sim uma tentativa de mostrar como o capitalismo voraz transforma Selma em uma espécie de peça, que ao se tornar maléfica é simplesmente descartada do sistema.

Apesar do tom melancólico da trama, o filme trabalha uma questão interessante, afinal , mesmo depois de todos os eventos trágicos na vida da protagonista, Selma consegue o que veio buscar na Terra do Tio Sam. Seus esforços não foram em vão, e com bastante determinação ela atinge o objetivo pelo qual batalha o filme todo. Mais do que um musical, ‘’Dançando no Escuro’’ é uma importante lição de vida, para que não desistamos de nossos sonhos e metas. Convoca-nos a batalhar até o fim pelo que queremos, mesmo que os obstáculos impostos sejam grandes. Mesmo que o preço a se pagar tenha que ser muito alto.

‘’They say it’s the last song
They don’t know us, you see
It’s only the last song
If we let it be’’

Nota: 10

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Vincere

Por Matheus Saboia

No decorrer da história do cinema, muitos foram os filmes que se propuseram a tratar da ascensão dos regimes nazi-fascistas. Obras de caráter documental, dramas históricos, aventuras e sátiras políticas tiveram como cenário esse tema tão importante para a História. À primeira vista, ”Vincere” é mais um desses documentos cinematográficos sobre o episódio, tendo em vista que tem Benito Mussolini como um de seus personagens principais, todavia a essência da trama é focada na figura desconhecida de Ida Alser e de seu filho Benito Dalser.

Tendo sua história descoberta em 2005 pelo jornalista italiano Marco Zeni, Ida Alser foi uma amante de Benito Mussolini, quando este ainda era um mero integrante do partido socialista. Profundamente apaixonada pelo futuro ditador, com o qual teve um filho, Ida não conseguiu aceitar a rejeição do amante e começou a suplicar para que este reconhecesse o fruto da relação. Com o passar dos anos, Mussolini ascende na Itália e emprega toda sua influência para apagar os registros de seu filho e de Alser.

Estruturado em dois atos, o cineasta Marco Bellocchio inicia o filme mostrando o relacionamento entre Ida e o jovem Benito Mussolini. Mediante as lentes do diretor, percebemos a plena entrega de Alser frente à indiferença de Mussolini, para quem a relação possuía um caráter estritamente sexual. Finda esta primeira parte, passamos a acompanhar o drama da protagonista que, por não esconder a verdade sobre o líder fascista, acaba recebendo o atestado de louca e atirada num manicômio, ao mesmo tempo em que testemunhamos o menino Benito sendo entregue a um orfanato de freiras.

Bellochio utiliza o interessante recurso de estampar na tela manchetes de jornais e propagandas de época, com o intuito de agregar um pouco do contexto histórico italiano ao filme. Com isso, viramos testemunhas do clamor popular pela entrada da Itália na Primeira Guerra Mundial, assim como do nacionalismo extremista de certas camadas da população – um dos principais aditivos para a hegemonia do Partido Fascista.

Cumprindo semelhante papel, o segundo ato da obra substitui o ator Filippo Timi – intérprete de Mussolini quando jovem – por imagens históricas de arquivo, que mostram o poderoso Duce discursando para multidões fanáticas em praças públicas. Ainda hoje a natureza de tais discursos permanece assustadora, tendo em vista que evidencia o aguçado poder de oratória do ditador, que conseguia envolver e hipnotizar todos os ouvintes.

Através dos trechos exibidos, percebemos elementos importantes no discurso fascista. Em certo momento, Mussolini evoca a grandiosidade do povo italiano, traçando paralelos entre a Itália Fascista e o Império Romano. Utilizando esse método de atribuir importância às camadas mais pobres da sociedade, o Duce conseguia propagar seus ideais de conquista, além de incitar o ufanismo cego na população.

No entanto, como fiz questão de ressaltar na introdução, “Vincere” é mais preocupado em retratar a trágica vida de Ida Dalser, desde o seu abandono na instituição psiquiátrica – recinto onde eram jogados os “indesejáveis” e possíveis ameaçadores da ordem estatal – até o seu ignorado grito pelo esclarecimento da verdade. Numa performance brilhante, Giovanna Mezzogiorno expõe toda a degradação sofrida pela sua personagem no hospício, bem como a dor sentida pela ausência do filho.

Encarnando o imponente Benito Mussolini na sua juventude, Filippo Timmi ignora os trejeitos característicos do ditador – como a famosa levantada de queixo – ao construir os primeiros passos do líder. Seu trabalho ganha ainda mais peso com o fato de também interpretar o filho bastardo do ditador, cuja personalidade é diametralmente oposta a do pai. De um lado, temos o autoritarismo e imponência do estadista italiano; do outro, a insegurança e os traumas do filho abandonado.

Pra finalizar, não tenho dúvidas de que “Vencer” poderia ser uma obra-prima, caso não fossem alguns problemas de ritmo, os quais tornam a narrativa maçante em algumas partes. Entretanto, é incontestável a importância que o projeto desenvolvido por Bellocchio adquire, ao trazer à tona uma história esquecida durante décadas. Se em outros tempos, Mussolini esmagaria os esforços de qualquer pessoa que se propusesse a contar a vida de Ida, atualmente a influência do antigo Duce não é mais capaz de esconder o que foi escrito.

E foi isso que Bellocchio provou na sua fundamental empreitada.

Nota: 8

Vencer (Vincere, 2009)

Direção: Marco Bellochio

Roteiro: Marco Bellochio e Daniela Ceselli

Elenco: Giovanna Mezzogiorno, Filippo Timi, Corrado Invernizzi, Pier Giorgio Bellocchio, Fausto Russo Alesi, Michela Cescon

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Blog de Ouro – Primeira Fase

Por Matheus Saboia

Meus votos para a primeira fase do Blog de Ouro:

Ator Coadjuvante

Guillermo Francella (-) O Segredo dos Seus Olhos

Andrew Garfield (-) A Rede Social

Mark Ruffalo (-) Minhas Mães e Meu Pai

Niels Arestrup (-) O Profeta

Matt Damon (-) Invictus

Atriz Coadjuvante

Mo’Nique (-) Preciosa – Uma História de Esperança

Julianne Moore (-) Direito de Amar

Olivia Williams (-) O Escritor Fantasma

Marion Cotillard (-) A Origem

Penélope Cruz (-) Nine

Elenco

Ilha do Medo

A Origem

Minhas Mães e Meu Pai

O Segredo dos Seus Olhos

Tropa de Elite 2

Fotografia

Ilha do Medo

A Origem

O Escritor Fantasma

O Segredo dos Seus Olhos

A Fita Branca

Montagem

Ilha do Medo

A Origem

O Segredo dos Seus Olhos

Scott Pilgrim contra o Mundo

A Rede Social

Direção de Arte

Ilha do Medo

A Origem

Harry Potter e as Relíquias da Morte: Parte 1

A Rede Social

Mary e Max

Figurino

Sherlock Holmes

Harry Potter e as Relíquias da Morte: Parte 1

Nine

Kick-Ass

Alice no País das Maravilhas

Trilha Sonora

A Origem

Harry Potter e as Relíquias da Morte: Parte 1

O Escritor Fantasma

Como Treinar o Seu Dragão

Direito de Amar

Canção Original

“We Belong Together” (-) Toy Story 3

“Better Days” (-) Comer, rezar e amar

“The Weary Kind” (-) Coração Louco

Maquiagem

Alice no País das Maravilhas

Zumbilânda

A Origem

Efeitos Visuais

A Origem

Ilha do Medo

Homem de Ferro 2

Sherlock Holmes

Harry Potter e as Relíquias da Morte: Parte 1

Som

Ilha do Medo

A Origem

Homem de Ferro 2

Guerra ao Terror

Tropa de Elite 2

Roteiro Original

A Origem

Mary e Max

Tudo Pode Dar Certo

Zumbilândia

Guerra ao Terror

Roteiro Adaptado

Ilha do Medo

A Rede Social

Toy Story 3

O Segredo dos Seus Olhos

Tropa de Elite 2

Filme Nacional

Tropa de Elite 2

As Melhores Coisas do Mundo

Quincas Berro D’Água

Animação

Mary e Max

Toy Story 3

Como Treinar o Seu Dragão

Direção

Christopher Nolan (-) A Origem

Martin Scorsese (-) Ilha do Medo

Juan José Campanella (-) O Segredo dos Seus Olhos

David Fincher (-) A Rede Social

José Padilha (-) Tropa de Elite 2

Atriz

Soledad Villamil (-) O Segredo dos Seus Olhos

Annette Bening (-) Minhas Mães e Meu Pai

Rebecca Hall (-) Atração Perigosa

Julianne Moore (-) Minhas Mães e Meu Pai

Giovanna Mezzogiorno (-) Vincere

Ator

Ricardo Darín (-) O Segredo dos Seus Olhos

Leonardo DiCaprio (-) Ilha do Medo

Colin Firth (-) Direito de Amar

Sam Rockwell (-) Lunar

Wagner Moura (-) Tropa de Elite 2

Filme

A Origem

Ilha do Medo

O Segredo dos Seus Olhos

Tropa de Elite 2

A Rede Social

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O Escritor Fantasma

Por Matheus Saboia

Roman Polanski é uma das celebridades mais controversas do cinema. Em meados da década de 60, sua esposa – que estava grávida – foi brutalmente assassinada por membros da seita do psicopata Charles Manson. Após essa grande tragédia, o cineasta se envolveu num escândalo sexual com uma menor de idade, motivo pelo qual  foi obrigado a fugir dos EUA para evitar a prisão. Desde então, Polanski não mais pisou em solo americano e  evitou durante décadas países como o Reino Unido, que certamente o extraditariam. Recentemente, o diretor  foi preso  na Suíca, enquanto participava de um festival de cinema na cidade de Zurique, e foi exatamente na prisão domiciliar que o cineasta concluiu “O Escritor Fantasma”.

Neste filme, Ewan McGregor interpreta um ghost writer (escritor fantasma), incumbido de terminar a biografia de um ex-primeiro ministro britânico (Pierce Brosnan), cuja carreira vem sofrendo fortes abalos em virtude de uma crise política. Apesar de receoso em aceitar o encargo num primeiro momento, visto que o seu antecessor foi encontrado morto em circunstâncias misteriosas, o protagonista acaba decidindo por ocupar a função inglória. À medida que o projeto avança e a crise política se acentua, o escritor vai descobrindo segredos que poderão colocar sua vida em risco.

Assim como o diretor, o primeiro ministro interpretado por Pierce Brosnan é obrigado a se refugiar num país estranho (no caso, os EUA) para evitar uma punição. Na trama, o ex-político (uma clara alusão a Tony Blair) é acusado de criar ilegalmente um exército paralelo, cuja função seria capturar supostos terroristas da Al-Qaeda, para depois entregá-los ao interrogatório da CIA, onde tais vítimas seriam certamente torturadas. A mensagem do cineasta é claramente um ataque às políticas norte-americanas que, sob o disfarce de protetoras da democracia e da paz mundial, agrediram não só o direito internacional vigente, como também direitos humanos inalienáveis. Não satisfeito em desenhar os contornos dessa crise política, Polanski ainda faz questão de mostrar que é perseguido incessantemente pelo mesmo país que oferece asilo à criminosos de guerra como o “fictício” Adam Lang.

Permeado de um forte cunho político, “O Escritor Fantasma” consegue ainda ser um louvável exercício de gênero. Quem conhece a carreira de Polanski, sabe do seu talento em trabalhar com o mistério. Clássicos da sua carreira como “O Bebê de Rosemary” e “Chinatown” são exemplares que comprovam a versatilidade do diretor em introduzir elementos de suspense em filmes totalmente diferentes – Chinatown apresenta um suspense característico dos films noir, enquanto O Bebê de Rosemary é mais voltado para o terror psicológico. Seguindo essa mesma linha, o enredo protagonizado pelo escritor fantasma também é recheado de sequências tensas e muito bem filmadas. Somando-se a esse trabalho elegante de direção, temos a eficiente trilha sonora composta por Alexander Desplat, que catalisa a tensão da história.

Pierce Brosnan, apesar do pouco tempo em cena, demonstra competência ao construir o retrato do ex-primeiro ministro Adam Lang. Verdade seja dita, a composição de Brosnan – o antigo James Bond , muito lembrado pela beleza e pouco pelo talento  – é fundamental para que a figura de Lang fuja do unidimensionalismo, que seria evidenciar apenas o lado político reprovável da personagem. Surgindo como a enigmática esposa do primeiro ministro, Olivia Williams também alcança grande destaque no elenco coadjuvante. Ainda temos o sempre talentoso Ewan McGregor encarnando o escritor ao qual o título se refere. Fato curioso é que o nome da personagem de McGregor não é revelado em nenhum momento, o que reforça ainda mais sua condição de fantasma, de um ser sem identidade.

O cinema apresenta raros casos de diretores que conseguiram vencer o desgaste provocado pelo envelhecimento, continuando a produzir excelentes filmes mesmo com uma idade mais avançada. A maioria – inclusive alguns dos mais renomados – apresenta um pico de criatividade durante um momento da carreira, onde estão concentradas as melhores obras. Existem, porém, alguns cineastas gigantes, cuja competência e inspiração são imunes ao tempo. São os casos de Alfred Hitchcock, Stanley Kubrick, Martin Scorsese, Akira Kurosawa, dentre outros poucos. Após o ótimo “O Escritor Fantasma”, tenho a impressão de que Roman Polanski (77 anos) se aproxima cada vez mais do panteão composto por estes deuses que tanto contribuiram para a sétima arte.

Nota: 8,5

O Escritor Fantasma (The Ghost Writer, 2010)

Direção: Roman Polanski

Roteiro: Roman Polanski e Robert Harris (baseado no livro de Robert Harris)

Elenco: Ewan McGregor, Pierce Brosnan, Kim Cattrall, Olivia Williams, James Belushi, Tom Wilkinson, Eli Wallach, Joe Bernthal

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Blog de Ouro

Por Matheus Saboia

Para quem não sabe, eu e o meu parceiro de blog Daniel Senos fomos selecionados para ingressar na Sociedade Brasileira de Blogueiros Cinéfilos (SBBC), uma comunidade com cinéfilos de todo o país que, assim como nós, publicam críticas e textos sobre filmes na internet. Uma das atribuições dos membros é votar numa premiação anual, que atende pelo nome de Blog de Ouro. O mais legal desta premiação é o fato dela refletir a opinião de cinéfilos que escrevem  pelo prazer e, até onde sei, não atuam profissionalmente no ramo da crítica. Com isso, é comum o leitor encontrar nos filmes e atores indicados ao prêmio muitos traços do seu gosto pessoal.

Praticamente idêntico ao Oscar no que diz respeito às categorias, o Blog de Ouro apresenta como elegíveis apenas os filmes lançados comercialmente nos cinemas brasileiros no respectivo ano. Nesta edição, escolheremos os destaques do ano passado.

Num espaço de semanas, divulgarei em primeira mão os meus votos no Boteco. Por ora, me despeço com este belo vídeo, feito pelo Vinícius Pereira (um dos responsáveis pela SBBC), que homenageia alguns dos memoráveis filmes que fizeram de 2010 um ótimo ano para o cinema.

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