Arquivo do mês: março 2011

O Terceiro Homem

Por Matheus Saboia

Enciclopédia de Cinema Katz: “… filme noir foi um termo usado para descrever os filmes Hollywoodianos da década de 40 e começo da de 50, nos quais eram retratados o submundo escuro e sombrio do crime e da corrupção. Filmes cujos heróis, bem como os vilões, eram cínicos, desiludidos e, frequentemente, solitários e inseguros, fortemente ligados ao passado e indiferentes quanto ao futuro. Em termos de estilo e técnica, o filme noir caracteristicamente abusa de cenas noturnas (internas e externas), com cenários que sugerem realismo e com uma iluminação que enfatiza as sombras e acentua o clima de fatalidade.”

Antes de tecer qualquer comentário, é importante inserir “O Terceiro Homem” no subgênero do qual ele faz parte. Agregando grande parte do conteúdo exposto na definição acima, o filme de Carol Reed é considerado um exemplar perfeito do cinema noir.

Baseado numa história de Graham Greene, o filme traz Joseph Cotten no papel de Holly Martins, um escritor norte-americano que viaja para Viena e descobre que seu amigo Harry Lime acaba de falecer, vítima de um atropelamento. À medida que vai colhendo informações sobre o acidente, Martins se depara com várias inconsistências nos depoimentos e, por conta disso, decide investigar a morte do amigo.

Contextualizado numa Viena pós II Guerra Mundial, o cenário remete a um espaço destruído e marginalizado, onde a população carece de suprimentos básicos e criminosos tiram proveito da situação comercializando tais produtos no mercado negro. Como acontece nos filmes noir, é verificada uma forte conexão entre homem e meio, isto é, o ambiente hostil e degradado do pós-guerra incita o comportamento reprovável dos personagens – ou seria o contrário?

O roteiro, desenvolvido pelo próprio Graham Greene, apresenta uma trama engenhosa, com algumas surpresas, e contém diálogos formidáveis. Além disso, a complexidade do texto se reflete no grau de profundidade dos personagens, os quais apresentam um comportamento dinâmico. Por mais que nos aproximemos do final, por exemplo, o roteiro consegue sustentar o caráter imprevisível de Holly Martins, sendo realmente difícil para o público antecipar os passos do personagem.

Surgindo como um interessante contraponto à atmosfera sombria da história, a trilha sonora composta por Anton Karas se afasta de qualquer tom de melancolia. Se alguém se propuser a escutar a música antes de assistir ao filme, dificilmente associará as composições à temática noir. No entanto, apesar do evidente constraste, a trilha se encaixa de modo tão perfeito à narrativa que torna-se impossível dissociar as músicas da obra.

O cineasta Carol Reed, por sua vez, demonstra pleno domínio técnico na direção. Sabendo utilizar a fotografia em prol da narrativa, Reed cria sequências excelentes, como a que revela o vilão pela primeira vez, surgindo em meio às sombras. Tal cena, por si só, já é clássica; uma daquelas que o espectador pode reconhecer mesmo sem ter visto o filme.

Produzido em 1949, “O Terceiro Homem” é daquelas obras que resistem ao tempo e tornam-se legados. Após décadas, o filme permanece como uma ótima opção, tanto para quem procura estudar este subgênero tão rico que é o cinema noir, como também para aqueles em busca de uma narrativa inteligente, que cumpre com a função de entreter (no melhor sentido da palavra).

Trocando em miúdos, trata-se de um filme imperdível!

Nota: 10

O Terceiro Homem (The Third Man, 1949)
Direção: Carol Reed
Roteiro: Graham Greene (baseado em uma de suas histórias)
Elenco: Joseph Cotten, Alida Valli, Orson Welles, Trevor Howard, Bernard Lee

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Top 5 – Pedro Almodóvar

Por Daniel Senos

Em um uma época em que estamos cercados de moralismos e preconceitos, em meio a uma luta das minorias por um espaço na sociedade, o cinema de Almodóvar merece um grande destaque. Sensível, chocante e sem qualquer espécie de julgamento, o diretor que também assina a maior parte de seus roteiros guia as suas obras expondo personagens humanas, verossímeis e apaixonadas. Não há espaço para hipocrisias nas histórias de Pedro Almodóvar, apenas personagens que vivem e lidam por muitas vezes com escolhas que lhes são impostas pela roda viva da vida. Talvez a melhor palavra para definir o conjunto de obras do diretor e roteirista seja ‘’paixão’’. As cores quentes dos cenários de seus filmes, seus personagens intensos e até as alusões a obras antigas da sétima arte que permeiam a filmografia do diretor são exemplos dessa paixão que caracteriza o cinema de Almodóvar.

Assim como o Top 5 dos filmes do Woody Allen, esse aqui segue os mesmos preceitos. Um breve pitaco sobre cada filme selecionado e o critério de escolha também permanece intacto. Os filmes foram selecionados de acordo com o impacto que exerceram em mim e certamente indicaria para alguém que me perguntasse sobre os meus preferidos (no momento) de Almodóvar.

5-Mulheres À Beira de um Ataque de Nervos

Uma deliciosa confusão conduzida com muita paixão por Almodóvar. Pepa (Carmem Maura), ao ser abandonada pelo seu amante, tem seu apartamento literalmente invadido pelo filho deste e sua mulher. Para piorar, uma amiga sua busca refúgio porque se envolveu com um terrorista e não sabe como lidar com a situação. Almodóvar conduz um filme despretensioso e extremamente hilário, talvez o filme mais bem humorado da filmografia do diretor.

4-Má Educação

Homossexualidade e crítica à religião católica são os principais pontos nesse filme. Em Madri, Enrique (Fele Martínez) é um cineasta que está estagnado em termos artísticos, quando um ator que se identifica como Ignacio (Nacho Pérez) o procura, pedindo um emprego. Este o entrega um roteiro intitulado ‘’A Visita’’, baseado em experiências que os dois haviam vividos juntos quando estudavam na mesma escola (ambos já se conheciam e haviam tido um romance no passado).

3-Carne Trêmula

Difícil escrever sobre esse filme sem divulgar algum spoiler… Basicamente, Victor (Liberto Rabal) é um entregador de pizzas que é apaixonado por Elena (Francesca Neri). Em meio a uma discussão, dois policiais são atraídos pelo barulho da briga. Um tiro é disparado e acerta o policial David (Javier Bardem), que fica aleijado e é motivo de prisão para Victor. A partir daí, Almodóvar brinca com as personagens ao colocá-los em situações interligadas e passionais, com reviravoltas logo nos primeiros momentos do filme.

2-Fale com Ela

Benigno (Jávier Cámara) é um enfermeiro que nutre um amor platônico por uma paciente em coma, Alicia (Leonor Watling). O jornalista Marco (Darío Grandinetti) tem um romance com a toureira Lydia (Rosario Flores) que, ao sofrer um grava acidente em uma tourada é internada em coma no mesmo hospital em que Benigno trabalha. A partir daí, os dois homens se encontram e criam um forte laço de amizade e daí a história do filme deslancha. O enredo é bastante forte e Benigno é um personagem sensível, que cuida de seu amor platônico com uma dedicação sem igual.

1-Tudo Sobre Minha Mãe

(Crítica no Site)

Menção Honrosa: Ata-me

Ricky (Antonio Banderas) sai de um hospital psiquiátrico e corre direto para a casa de uma ex-atriz pornô, Marina (Victoria Abril), com quem teve relação sexual apenas uma vez. Tenta convencê-la de ser sua esposa, mas ela recusa e se mostra bastante relutante com a idéia, até que Ricky tem a idéia de amarrá-la a sua própria cama, para que esta mude de idéia. Marina, ao ver que Ricky realmente se dedica a ela, começa a apaixonar-se por ele, e Almodóvar conduz tudo isso com um humor delicioso, em meio a esse casal apaixonante.

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Javier Bardem em “Biutiful”

Por Matheus Saboia

Este post é o primeiro de uma série de 4 textos, onde falarei um pouco sobre as atuações que considero as melhores de 2010. Optarei pela clássica divisão entre atores e atrizes, principais e coadjuvantes; sendo este texto destinado àquele que considero o melhor ator.

Muito tem se falado a respeito da atuação de Colin Firth como o monarca inglês George VI. Embora faça coro aos admiradores de tal desempenho, devo dizer que a performance que mais me chamou a atenção nos últimos meses foi a do espanhol Javier Bardem no filme “Biutiful”, último trabalho do cineasta mexicano Alejandro González Iñárritu. Bardem interpreta um atormentado pai de família que, após descobrir que possui uma doença terminal, tenta ajustar sua conturbada vida.

Curioso é que “Biutiful” apresenta um único ponto de vista, fato inédito na filmografia de Iñárritu, acostumado a centrar suas histórias em personagens diversos, cujas vidas se chocam por força das circunstâncias. Neste filme, o diretor estuda somente a trajetória de Uxbal (Bardem), enfatizando sua relação com uma morte cada vez mais próxima.  Javier Bardem esbanja competência ao transmitir a degradação física gerada pela doença, o sofrimento frente a aproximação da morte e a insegurança com o futuro dos filhos.

Quando estreiou em Cannes, o filme dividiu opiniões; não faltaram comentários criticando o teor pessimista e depressivo da trama. Ciente do choque provocado em parte da platéia, Iñárritu replicou:

“A gente anda se afastando tanto uns dos outros que, quando você apresenta algo humano, que trata de emoções humanas, as pessoas dizem ‘isso é deprimente’, porque ninguém consegue reconhecer-se naquilo.”

Se houve, porém, algo que despontou como unanimidade, foi o brilhantismo de Javier Bardem como intérprete. A performance foi tão aclamada que o Festival de Cannes consagrou-o com o prêmio de melhor ator. Meses depois Bardem obteve mais um importante reconhecimento, ao ser indicado pela terceira vez ao Oscar. É sabido que a estatueta acabou indo parar nas mãos do já citado Colin Firth, no entanto sua indicação é louvável, visto que a Academia não costuma lembrar das atuações em filmes de língua não-inglesa.

Longe de ser uma crítica do filme, resolvi escrever este texto com outras duas intenções. Primeiramente, para elogiar o trabalho de Javier Bardem, um dos meus atores favoritos. E, em segundo lugar, com o intuito de recomendar o filme, que tem sido, ao meu ver, pouco comentado pelas pessoas.

Aos que se impressionaram com a interpretação minimalista de Colin Firth em “O Discurso do Rei”, afirmo que temos aqui um concorrente à altura!

Biutiful (Biutiful, 2010)

Direção: Alejandro González Iñárritu

Roteiro: Alejandro González Iñárritu, Nicolás Giacobone e Armando Bo

Elenco: Javier Bardem, Maricel Álvarez, Hanaa Bouchaib, Guillermo Estrella, Eduard Fernández

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