O Terceiro Homem

Por Matheus Saboia

Enciclopédia de Cinema Katz: “… filme noir foi um termo usado para descrever os filmes Hollywoodianos da década de 40 e começo da de 50, nos quais eram retratados o submundo escuro e sombrio do crime e da corrupção. Filmes cujos heróis, bem como os vilões, eram cínicos, desiludidos e, frequentemente, solitários e inseguros, fortemente ligados ao passado e indiferentes quanto ao futuro. Em termos de estilo e técnica, o filme noir caracteristicamente abusa de cenas noturnas (internas e externas), com cenários que sugerem realismo e com uma iluminação que enfatiza as sombras e acentua o clima de fatalidade.”

Antes de tecer qualquer comentário, é importante inserir “O Terceiro Homem” no subgênero do qual ele faz parte. Agregando grande parte do conteúdo exposto na definição acima, o filme de Carol Reed é considerado um exemplar perfeito do cinema noir.

Baseado numa história de Graham Greene, o filme traz Joseph Cotten no papel de Holly Martins, um escritor norte-americano que viaja para Viena e descobre que seu amigo Harry Lime acaba de falecer, vítima de um atropelamento. À medida que vai colhendo informações sobre o acidente, Martins se depara com várias inconsistências nos depoimentos e, por conta disso, decide investigar a morte do amigo.

Contextualizado numa Viena pós II Guerra Mundial, o cenário remete a um espaço destruído e marginalizado, onde a população carece de suprimentos básicos e criminosos tiram proveito da situação comercializando tais produtos no mercado negro. Como acontece nos filmes noir, é verificada uma forte conexão entre homem e meio, isto é, o ambiente hostil e degradado do pós-guerra incita o comportamento reprovável dos personagens – ou seria o contrário?

O roteiro, desenvolvido pelo próprio Graham Greene, apresenta uma trama engenhosa, com algumas surpresas, e contém diálogos formidáveis. Além disso, a complexidade do texto se reflete no grau de profundidade dos personagens, os quais apresentam um comportamento dinâmico. Por mais que nos aproximemos do final, por exemplo, o roteiro consegue sustentar o caráter imprevisível de Holly Martins, sendo realmente difícil para o público antecipar os passos do personagem.

Surgindo como um interessante contraponto à atmosfera sombria da história, a trilha sonora composta por Anton Karas se afasta de qualquer tom de melancolia. Se alguém se propuser a escutar a música antes de assistir ao filme, dificilmente associará as composições à temática noir. No entanto, apesar do evidente constraste, a trilha se encaixa de modo tão perfeito à narrativa que torna-se impossível dissociar as músicas da obra.

O cineasta Carol Reed, por sua vez, demonstra pleno domínio técnico na direção. Sabendo utilizar a fotografia em prol da narrativa, Reed cria sequências excelentes, como a que revela o vilão pela primeira vez, surgindo em meio às sombras. Tal cena, por si só, já é clássica; uma daquelas que o espectador pode reconhecer mesmo sem ter visto o filme.

Produzido em 1949, “O Terceiro Homem” é daquelas obras que resistem ao tempo e tornam-se legados. Após décadas, o filme permanece como uma ótima opção, tanto para quem procura estudar este subgênero tão rico que é o cinema noir, como também para aqueles em busca de uma narrativa inteligente, que cumpre com a função de entreter (no melhor sentido da palavra).

Trocando em miúdos, trata-se de um filme imperdível!

Nota: 10

O Terceiro Homem (The Third Man, 1949)
Direção: Carol Reed
Roteiro: Graham Greene (baseado em uma de suas histórias)
Elenco: Joseph Cotten, Alida Valli, Orson Welles, Trevor Howard, Bernard Lee

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