Arquivo do mês: junho 2011

Filmes Recomendados

Por Daniel Senos

Tenho visto muitos filmes relacionados ao samba e à música brasileira, então as duas obras que recomendarei serão relacionadas ao assunto!

Saravah

Belíssimo documentário sobre a música brasileira, principalmente o samba e a bossa nova em 1969. Estrelando artistas como Paulinho da Viola, Maria Bethania, Baden Powell, João da Baiana e mestre Pixinguinha (únicas cenas coloridas que se tem desse grande mestre do choro), é bonito de ver o apaixonamento de Pierra Barouh, diretor do filme, pela nossa música brasileira à medida em que entrevista Baden Powell e Paulinho da Viola. Imperdível e obrigatório para todos os amantes da música brasileira.

O Mistério do Samba

Resultado de uma intensa pesquisa feita pela equipe que o produziu e realizou, ‘’O Mistério do Samba’’ aborda o cotidiano da Velha Guarda de uma das mais tradicionais Escolas de Samba do Rio de Janeiro, a Portela. Sambistas da antiga como Monarco, Casquinha, Jair do Cavaquinho, Argemiro do Patrocínio, Tia Surica e Eunice contam casos antigos, histórias muitas vezes engraçadas e sempre com um toque de saudosismo.

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“Reflexões de um Liquidificador”

Por Daniel Senos

‘’Reflexões de um Liquidificador’’ já é um título no mínimo curioso: o que um simples eletrodoméstico portador de lâminas com a serventia de triturar alimentos em geral teria para refletir? O utensílio nada mais é do que um personagem do filme e interage ativamente durante a história, tem um temperamento difícil e só funciona quando quer; ainda troca idéia com Elvira (Ana Lúcia Torre) e se mostra curioso em relação a diversas características do mundo real. Repleto de humor negro, divagações filosóficas e até um espaço para um resquício do gênero policial, ‘’Reflexões de um Liquidificador’’ é uma obra criativa e dinâmica, que surpreende em diversos fatores.

Após um conserto, o Liquidificador passa a ter consciência do que se passa a seu redor; entende e se fascina pela condição humana, passa a se questionar sobre questões existenciais suas e da sociedade até que trava o primeiro contato com a sua dona, Elvira e a partir daí torna-se companheiro e confidente da personagem.  A relação dos dois se tornará mais estreita depois de um certo incidente envolvendo Onofre (Germano Haiut), o marido de Ana Lucia Torre na história.

Logo nas primeiras cenas já nos deparamos com o Liquidificador (dublado por Selton Mello e sua voz inconfundível) e é fácil perceber a importância que o objeto possui na narrativa: encontra-se bem no topo da geladeira, no canto superior direito da tela, enquanto dialoga com Elvira, ‘’olhando’’ de cima para baixo para sua proprietária. O personagem da Ana Lúcia Torre dialoga com o Liquidificador abertamente chega até a questionar-se se estaria louca ou se seria efeito de uma possível caduquice.

O curioso é que, propositalmente, não fica claro em momento algum se é  um delírio de Elvira ou uma característica fantasiosa da história o fato do liquidificador começar a entender as pessoas. Um argumento sólido para justificar uma construção delirante (algo da ordem de um distúrbio no conteúdo do pensamento de Elvira) seria que o Liquidificador não se expressa com mais ninguém a não ser com ela. Porém tal argumento esbarra em outros a favor de uma realidade fantasiosa, como o fato de o liquidificador relatar experiências próprias, suas indagações filosóficas sobre a vida ou mesmo a sua especulação de como se tornou consciente, o que o faz dotado de uma singularidade. Enfim, embora acredite que seja uma produção fantasiosa da história, provavelmente esse não é um dos focos do filme.

O cenário, a cidade de São Paulo, é visto de uma outra perspectiva, o lado das pessoas trabalhadoras, que suam a camisa para conseguir sobreviver cada dia que passa. O filme nos mostra uma parcela da cidade mais sofrida, que não goza do mesmo luxo dos altos prédios. Vemos a casa de Ana Lúcia Torre, com tons neutros e mesmo cores esmaecidas, o que pode nos despertar certa impressão de cansaço.  A cozinha mesmo é toda de ladrilhos brancos e azuis e traz mais uma vez cores sem vida junto com a geladeira e de outros utensílios.

André Klotzel, diretor do filme, conduz de forma bastante dinâmica o roteiro de José Antônio de Souza. Muitas vezes investe em uma câmera que percorre o ambiente, bem contemplativa, geralmente em situações em que acontecem as divagações do Liquidificador. Cenas como as do objeto dublado por Selton Mello divagando sobre as perguntas dos humanos (de onde viemos e para onde vamos) com a câmera focada nos pés dos pedestres indo e vindo são muito bem conduzidas. O roteiro é bastante coeso, construído em cima das divagações filosóficas do Liquidificador e as suas confabulações com Elvira. A narrativa se constrói e dá pistas para os espectadores sobre o paradeiro do marido de Elvira, Onofre (Germano Haiut) à medida em que se desenvolve.

Realmente é uma pena que esse filme tenha passado tão despercebido por aqui, pois trata-se de uma obra divertida e criativa. Vale bastante a pena conferir e rir um pouco com as tramóias de Ana Lúcia Torre e seu eletrodoméstico. O tom de crueza permeado de um certo humor lembra um pouco filmes como ‘’Estômago’’ e ‘’O Cheiro do Ralo’’. Não deixem de conferir!

Nota: 8

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