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“Reflexões de um Liquidificador”

Por Daniel Senos

‘’Reflexões de um Liquidificador’’ já é um título no mínimo curioso: o que um simples eletrodoméstico portador de lâminas com a serventia de triturar alimentos em geral teria para refletir? O utensílio nada mais é do que um personagem do filme e interage ativamente durante a história, tem um temperamento difícil e só funciona quando quer; ainda troca idéia com Elvira (Ana Lúcia Torre) e se mostra curioso em relação a diversas características do mundo real. Repleto de humor negro, divagações filosóficas e até um espaço para um resquício do gênero policial, ‘’Reflexões de um Liquidificador’’ é uma obra criativa e dinâmica, que surpreende em diversos fatores.

Após um conserto, o Liquidificador passa a ter consciência do que se passa a seu redor; entende e se fascina pela condição humana, passa a se questionar sobre questões existenciais suas e da sociedade até que trava o primeiro contato com a sua dona, Elvira e a partir daí torna-se companheiro e confidente da personagem.  A relação dos dois se tornará mais estreita depois de um certo incidente envolvendo Onofre (Germano Haiut), o marido de Ana Lucia Torre na história.

Logo nas primeiras cenas já nos deparamos com o Liquidificador (dublado por Selton Mello e sua voz inconfundível) e é fácil perceber a importância que o objeto possui na narrativa: encontra-se bem no topo da geladeira, no canto superior direito da tela, enquanto dialoga com Elvira, ‘’olhando’’ de cima para baixo para sua proprietária. O personagem da Ana Lúcia Torre dialoga com o Liquidificador abertamente chega até a questionar-se se estaria louca ou se seria efeito de uma possível caduquice.

O curioso é que, propositalmente, não fica claro em momento algum se é  um delírio de Elvira ou uma característica fantasiosa da história o fato do liquidificador começar a entender as pessoas. Um argumento sólido para justificar uma construção delirante (algo da ordem de um distúrbio no conteúdo do pensamento de Elvira) seria que o Liquidificador não se expressa com mais ninguém a não ser com ela. Porém tal argumento esbarra em outros a favor de uma realidade fantasiosa, como o fato de o liquidificador relatar experiências próprias, suas indagações filosóficas sobre a vida ou mesmo a sua especulação de como se tornou consciente, o que o faz dotado de uma singularidade. Enfim, embora acredite que seja uma produção fantasiosa da história, provavelmente esse não é um dos focos do filme.

O cenário, a cidade de São Paulo, é visto de uma outra perspectiva, o lado das pessoas trabalhadoras, que suam a camisa para conseguir sobreviver cada dia que passa. O filme nos mostra uma parcela da cidade mais sofrida, que não goza do mesmo luxo dos altos prédios. Vemos a casa de Ana Lúcia Torre, com tons neutros e mesmo cores esmaecidas, o que pode nos despertar certa impressão de cansaço.  A cozinha mesmo é toda de ladrilhos brancos e azuis e traz mais uma vez cores sem vida junto com a geladeira e de outros utensílios.

André Klotzel, diretor do filme, conduz de forma bastante dinâmica o roteiro de José Antônio de Souza. Muitas vezes investe em uma câmera que percorre o ambiente, bem contemplativa, geralmente em situações em que acontecem as divagações do Liquidificador. Cenas como as do objeto dublado por Selton Mello divagando sobre as perguntas dos humanos (de onde viemos e para onde vamos) com a câmera focada nos pés dos pedestres indo e vindo são muito bem conduzidas. O roteiro é bastante coeso, construído em cima das divagações filosóficas do Liquidificador e as suas confabulações com Elvira. A narrativa se constrói e dá pistas para os espectadores sobre o paradeiro do marido de Elvira, Onofre (Germano Haiut) à medida em que se desenvolve.

Realmente é uma pena que esse filme tenha passado tão despercebido por aqui, pois trata-se de uma obra divertida e criativa. Vale bastante a pena conferir e rir um pouco com as tramóias de Ana Lúcia Torre e seu eletrodoméstico. O tom de crueza permeado de um certo humor lembra um pouco filmes como ‘’Estômago’’ e ‘’O Cheiro do Ralo’’. Não deixem de conferir!

Nota: 8

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A Experiência

Por Matheus Saboia

Em 1971, o psicólogo social Philip Zimbardo comandou uma experiência que mais tarde ficaria conhecida como Experiência da Prisão de Stanford. Tratou-se, em resumo, de uma simulação do cotidiano prisional, onde 23 estudantes universitários foram divididos aleatoriamente em guardas e presidiários. A ideia do pesquisador era analisar os efeitos psicológicos sobre os indivíduos inseridos em tal ambiente de clausura.

Originalmente programado para durar duas semanas, o projeto teve que ser interrompido no 6º dia, pois passou a representar uma séria ameaça aos participantes. Embora proibidos de agir com castigos físicos, os guardas não tiveram problemas em aplicar punições psicológicas como forma de manutenção de sua autoridade. Barbaridades foram cometidas em nome da disciplina e o mais impressionante não é perceber como os detentos tiveram sua integridade físico-emocional destruída; não, fundamental é constatar que os vigilantes, aplicadores de métodos sádicos e humilhantes, não passavam de estudantes universitários, sem qualquer inclinação para a violência, de acordo com testes preliminares.

Inspirado nessa ideia, o cineasta Oliver Hirschbiegel formulou sua versão cinematográfica para os fatos. No filme, o protagonista – também baseado em um dos participantes – submete-se ao experimento com um propósito diferente dos demais: almejava, além do dinheiro prometido, vender sua história a um jornal depois que a simulação acabasse. Conhecido como Prisioneiro 77, a ficção traz o personagem como o símbolo maior de insubordinação entre os detentos, o que obviamente o tornará alvo principal dos carcereiros.

Enfatizo aqui o seu nome: Prisioneiro 77. Como ocorre em várias prisões, os cientistas responsáveis, no intuito de tornar a experiência mais real, adotaram medidas de despersonalização e desumanização do preso, tais como: raspagem do cabelo, utilização de números de identificação, adoção de uniforme etc. Medidas controversas, objeto de crítica para intelectuais dos mais diversos campos do conhecimento.

Mas vamos falar do filme. É certo que o diretor utilizou-se de alguns elementos ficcionais na narrativa – no filme, por exemplo, os desdobramentos da pesquisa atingem um patamar muito mais crítico (catastrófico, diria) – entretanto tais recursos se justificam, na medida em que potencializam os efeitos da história, sem que esta perca a identidade com o material original. Portanto, pode-se, sim, considerar a película bastante fiel aos fatos ocorridos na prisão de Stanford.

Se há uma falha a ser citada, esta se encontra no tratamento dado à amante do protagonista, que atua no núcleo fora da prisão. Além de não desenvolver razoavelmente a relação dos dois (o que é, de certa forma, justificável, pois o foco não se encontra aqui), o roteiro desperdiça tempo demais com a personagem, fazendo com que o espectador clame nessas horas para que as lentes do diretor se voltem para a experiência. Sendo assim, por mais que a personagem desempenhe um papel de importância no terceiro ato, suas cenas iniciais soam absolutamente descartáveis.

Recentemente, Philip Zimbardo (idealizador do experimento) concedeu uma entrevista, onde discorreu, dentre outras coisas, sobre os abusos cometidos em prisões no Iraque por soldados norte-americanos. Reproduzo abaixo um dos trechos que acredito ilustrar precisamente a ótica do psicólogo acerca dos eventos de 1971:

(…) o comportamento humano é mais influenciado pelas coisas fora de nós do que pelas que estão dentro de nós. A “situação” é o ambiente externo. O ambiente interno são os genes, a história moral, a religião. Há momentos em que as circunstâncias externas nos sobrecarregam, e fazemos coisas que jamais imaginaríamos fazer. Se você não sabe que isso pode acontecer, corre o risco de ser seduzido pelo mal. Precisamos nos vacinar contra o nosso próprio potencial para o mal. Temos de reconhecê-lo. Só assim podemos mudá-lo.

Como se pôde perceber, o filme de que falo não é daqueles esquecíveis. Seu grande feito é promover um diálogo entre o cinema e as ciências sociais, de modo que a película não adquira um papel coadjuvante – um mero veículo para ilustrar ideias acadêmicas. Quero dizer: subsistindo todas as qualidades de uma obra cinematográfica (afinal, o cinema é uma arte autônoma), o filme estabelece ainda uma importante interdisciplinaridade, material para boas reflexões.

Espero que a sétima arte não deixe nunca de produzir obras assim.

Nota: 8,5

A Experiência (Das Experiment, 2001)

Direção: Oliver Hirschbiegel

Roteiro: Mario Giordano, Christoph Darnstädt e Don Bohlinger (baseado em romance de Mario Giordano)

Elenco: Moritz Bleibtreu, Christian Berkel, Oliver Stokowski, Wotan Wilke Möhring, Edgar Selge, Andrea Sawatzki

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Filmes Recomendados

Por Daniel Senos

Inauguro com essa post, uma nova categoria de atualizações do blogue, ‘’Filmes Recomendados’’. O objetivo é compartilhar com os leitores do Boteco indicações de obras da sétima arte a serem assistidas, sem ter que fazer uma análise mais profunda, como nós viemos fazendo com os filmes que queremos recomendar. Um breve texto sobre uma ou duas recomendações, somente para despertar a curiosidade de quem ainda não viu, uma breve sinopse e um comentário pessoal (mais ou menos o que fazemos na descrição dos filmes da categoria ‘’Top’’). Vamos aos filmes!

Noel – Poeta da Vila

Como um ferrenho apreciador de samba, assisti a esse ‘’Noel – Poeta da Vila’’ de olhos vidrados, afinal trata-se de um dos maiores nomes da história da nossa música brasileira, o mestre Noel Rosa. O filme é mágico porque consegue nos transportar para o tempo de Noel, auge da malandragem e da popularização do samba, vemos os carnavais de rua, sambistas como Ismael Silva e Cartola, amigos de Noel Rosa, escrevendo suas letras nos bares. Obviamente, as músicas do sambista-tema do filme embalam quase toda a trilha sonora, junto com os sambas de seu rival Wilson Batista e de seus parceiros já citados. Como cinema mesmo nem é aquelas coisas, até porque certos pontos da vida de Noel não são desenvolvidos direito, como a polêmica com Wilson Batista, que deveria receber um tratamento mais digno, mas vale a pena conferir.

Paulinho da Viola – Meu Tempo é Hoje

Paulinho da Viola é um dos ícones mais populares do samba. Simpático e com o seu jeito doce, a vontade ao assistir esse documentário é de sentar ao lado do sambista, abrir uma cerveja entoar suas músicas o dia inteiro. O filme consegue mostrar bastante bem quem é o músico Paulinho da Viola, com relato de seus filhos, mulher e de amigos da Velha Guarda da Portela além de Marisa Monte, Zeca Pagodinho, Elton Medeiros etc. As versões gravadas para o filme das músicas que compõem a trilha sonora são sensacionais, destaque para ‘’Carinhoso’’, do mestre Pixinguinha e João de Barro, dueto de Paulinho da Viola com Marisa Monte e ‘’Sinal Fechada’’, sempre belíssima. Imperdível!

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Vanilla Sky

Por Daniel Senos

‘’David, Open your Eyes’’

Particularmente eu não gostei de ‘’Abre Los Ojos’’, de Alejandro Amenábar. Com atores catatônicos e nem um pouco carismáticos (incluindo a minha querida Penélope Cruz, infelizmente) o filme não me cativou nem um pouco. Ao contrário de seu remake, o qual considero muito bom, ‘’Vanilla Sky’’. Tudo o que a obra de Amenábar tinha de bom é resgatado no filme de Cameron Crowe, num exemplar feito para ser um Best-seller (estrelando Tom Cruise, Camerom Diaz e Penelope Cruz) mas consegue ter aquele ‘’algo a mais’’, um tempero colocado pelo roteiro adaptado do diretor.

Somos transportados para o mundo de David Aames Jr (um Tom Cruise inspiradíssimo), um playboy que herdou a fortuna de seu falecido pai e vive sem compromissos com a vida. O filme começa com uma gravação no despertador, com a voz de Julie Gianne (Cameron Díaz), com quem mantinha uma relação estritamente carnal, o que afeta profundamente a personagem, que nutre um sentimento maior por David. Sofia (Penélope Cruz) surge na trama, no aniversário de David, e os dois se apaixonam e vivem momentos que dizem sobre o real valor da vida (‘’Cada minuto que passa é uma chance de virar o jogo’’). Julie, desconcertada pelo que está acontecendo, oferece uma carona a David e causa um grave acidente com o carro, tirando a própria vida e desfigurando David.

A partir desse momento o filme se transforma em uma espécie de cartas fora de ordem. A edição das cenas permite que o filme seja interpretado de diversas formas, enquanto um perturbado David é esmiuçado por um psicólogo, Mccabe (Kurt Russell). Mistura-se o sonho com a realidade e à medida que o filme passa algumas cenas tomam outro significado em função dos diálogos entre as personagens. Cameron Crowe entranha em um lado obscuro da mente humana: até que ponto o ser humano, em plena sanidade de suas faculdades mentais pode discernir a realidade externa da sua própria realidade (imaginação)? Até onde os nossos sentimentos e sensações podem interferir na nossa concepção de realidade externa?

Com a temática exposta, é interessante traçar um paralelo com o argumento do sonho de Descartes: para o filósofo, que questionava todo o conhecimento obtido através de suas próprias percepções, não há como discernir as impressões obtidas durante o sono e quando se está acordado. Portanto, se as percepções são ilusórias, um corpo pode não só ter uma forma diferente do que é apresentada na realidade em que compreendemos, mas simplesmente não existir. Será que toda a trama do filme não nos remete a um complexo sonho da personagem principal?

A trilha sonora do filme é composta por artistas como Bob Dylan e Radiohead e embalam David nessa jornada no caleidoscópio que a sua vida se tornou após o acidente. Nancy Wilson assina um tema que se repete por diversas vezes durante a história, acentuando as angústias, alegrias, esperanças e desilusões de David.

Por fim, gostaria de ressaltar Tom Cruise, que realmente consegue desenvolver a personagem de forma bastante convincente, explorando todo o desespero de David em sua desventura após o acidente. Ao contrário de ‘’Abre Los Ojos’’, Penélope Cruz atua de forma mais orgânica e passional, trazendo uma riqueza à sua misteriosa personagem. A cena final de ‘’Vanilla Sky’’ nos deixa com a pulga atrás da orelha e até faz o filme merecer uma revisita posteriormente!

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O Terceiro Homem

Por Matheus Saboia

Enciclopédia de Cinema Katz: “… filme noir foi um termo usado para descrever os filmes Hollywoodianos da década de 40 e começo da de 50, nos quais eram retratados o submundo escuro e sombrio do crime e da corrupção. Filmes cujos heróis, bem como os vilões, eram cínicos, desiludidos e, frequentemente, solitários e inseguros, fortemente ligados ao passado e indiferentes quanto ao futuro. Em termos de estilo e técnica, o filme noir caracteristicamente abusa de cenas noturnas (internas e externas), com cenários que sugerem realismo e com uma iluminação que enfatiza as sombras e acentua o clima de fatalidade.”

Antes de tecer qualquer comentário, é importante inserir “O Terceiro Homem” no subgênero do qual ele faz parte. Agregando grande parte do conteúdo exposto na definição acima, o filme de Carol Reed é considerado um exemplar perfeito do cinema noir.

Baseado numa história de Graham Greene, o filme traz Joseph Cotten no papel de Holly Martins, um escritor norte-americano que viaja para Viena e descobre que seu amigo Harry Lime acaba de falecer, vítima de um atropelamento. À medida que vai colhendo informações sobre o acidente, Martins se depara com várias inconsistências nos depoimentos e, por conta disso, decide investigar a morte do amigo.

Contextualizado numa Viena pós II Guerra Mundial, o cenário remete a um espaço destruído e marginalizado, onde a população carece de suprimentos básicos e criminosos tiram proveito da situação comercializando tais produtos no mercado negro. Como acontece nos filmes noir, é verificada uma forte conexão entre homem e meio, isto é, o ambiente hostil e degradado do pós-guerra incita o comportamento reprovável dos personagens – ou seria o contrário?

O roteiro, desenvolvido pelo próprio Graham Greene, apresenta uma trama engenhosa, com algumas surpresas, e contém diálogos formidáveis. Além disso, a complexidade do texto se reflete no grau de profundidade dos personagens, os quais apresentam um comportamento dinâmico. Por mais que nos aproximemos do final, por exemplo, o roteiro consegue sustentar o caráter imprevisível de Holly Martins, sendo realmente difícil para o público antecipar os passos do personagem.

Surgindo como um interessante contraponto à atmosfera sombria da história, a trilha sonora composta por Anton Karas se afasta de qualquer tom de melancolia. Se alguém se propuser a escutar a música antes de assistir ao filme, dificilmente associará as composições à temática noir. No entanto, apesar do evidente constraste, a trilha se encaixa de modo tão perfeito à narrativa que torna-se impossível dissociar as músicas da obra.

O cineasta Carol Reed, por sua vez, demonstra pleno domínio técnico na direção. Sabendo utilizar a fotografia em prol da narrativa, Reed cria sequências excelentes, como a que revela o vilão pela primeira vez, surgindo em meio às sombras. Tal cena, por si só, já é clássica; uma daquelas que o espectador pode reconhecer mesmo sem ter visto o filme.

Produzido em 1949, “O Terceiro Homem” é daquelas obras que resistem ao tempo e tornam-se legados. Após décadas, o filme permanece como uma ótima opção, tanto para quem procura estudar este subgênero tão rico que é o cinema noir, como também para aqueles em busca de uma narrativa inteligente, que cumpre com a função de entreter (no melhor sentido da palavra).

Trocando em miúdos, trata-se de um filme imperdível!

Nota: 10

O Terceiro Homem (The Third Man, 1949)
Direção: Carol Reed
Roteiro: Graham Greene (baseado em uma de suas histórias)
Elenco: Joseph Cotten, Alida Valli, Orson Welles, Trevor Howard, Bernard Lee

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Guerra ao Terror

Por Daniel Senos

Sempre tive um pé atrás com filmes que tratam de assuntos relacionados a guerra. Assim como a comédia romântica, é um gênero que já está bastante desgastado pela quantidade de títulos que exploram diversos conflitos que aconteceram, acontecem ou mesmo fictícios. Enfim, particularmente eu procuro obras que possuam alguma espécie de diferencial, que não sejam somente um tiroteio desordenado, com leves pinceladas de momentos emocionais superficiais. Filmes que dão ênfase ao lado psicológica e emocional dos soldados, como este exemplar, merecem ser vistos justamente porque mostram o que a guerra é capaz de fazer com quem se submete a ela.

Com a premissa ‘’A guerra é uma droga’’, ‘’Guerra ao Terror’’ começa em grande estilo, com direito a efeitos soberbos e uma câmera lenta muito bem utilizada, marcando o evento que ocasiona o desenvolvimento da trama. O sargento Matt Thompson (Guy Pearce) é morto durante uma operação, em que a bomba é acionada devido a um descuido do Especialista Owen Eldridge (Brian Geraghty), que não atira a tempo no portador do dispositivo que aciona o explosivo. A partir deste momento, entra em cena o sargento William James (Jeremy Renner), que assume a liderança do grupo.

Há uma contagem dos poucos dias que faltam para que os militares voltem para casa e o novo líder só faz com que esses pareçam um inferno. O personagem parece não gostar muito de trabalhar em equipe, o que angustia principalmente o Sargento JT Sanborn (Anthony Mackie), que reclama e troca ofensas com o oficial. Temos aqui um perfil interessante da equipe: o sargento Willian James, experiente de guerras, diz não querer substituir o líder passado e age de forma não acolhedora e até com uma atitude não coerente com os princípios do exército, de trabalho em equipe. O sargento JT Sanborn bate de frente diversas vezes com o novo líder, por considerá-lo insensato e pela proximidade da data de seu retorno aos EUA. O especialista Owen ainda é assombrado pelo erro que ocasionou a morte de seu companheiro e se submete mais facilmente com a personagem de Jeremy Jenner, provavelmente pela necessidade de se sentir acolhido por uma figura de liderança.

O especialista Owen Eldridge ainda é bastante explorado no filme, pelo seu medo da própria situação infernal no Iraque, onde qualquer objeto na rua poderia ser uma bomba prestes a ser acionada e pelo deslize com o companheiro. As conversas com o psicólogo e suas atitudes em campo de batalha refletem o grande medo que todo soldado possui, mas que talvez por ser o mais novato da equipe deixe transparecer mais: o medo de não voltar para casa, de simplesmente desaparecer em uma explosão e se perder entre as areias do Iraque.

O Sargento JT Sanborn tenta ao máximo disfarçar o que sente, apenas demonstrando raiva pelo líder da equipe. Porém seus sentimentos acabam vindo a tona quando a situação aperta e já não há como ocultá-lo.

A personagem de Jeremy Jenner, à medida que o filme se desenrola, mostra que não é somente uma figura egoísta e viciada em adrenalina, cuidando de sua equipe (na excelente cena do deserto, onde há um conflito e o sargento oferece suco a JT Sanborn e tranqüiliza Owen) e mesmo confraternizando com eles. Vemos então a desconstrução da personagem militar, que abdica de suas emoções no campo de batalha, para um ser humano atormentado pela realidade cruel da guerra. Cenas como a que William dorme com o capacete de proteção antibombas ou a que liga o chuveiro sobre sua cabeça só mostram como a guerra afeta o lado emocional desses militares.

Durante a confraternização, JT Sanborn descobre uma curiosa caixa lotadas de pedaços de bombas. Ao perguntar a seu chefe, este explica que são objetos que quase tiraram a sua vida. Interessante notar que a grande fruição de William James é se expor a essas situações extremas e sair vivo delas, levando troféus que simbolizem a sua vitória.

Como a premissa inicial nos disse e é possível notar, Willian James é um militar distinto de seus companheiros. Trata-se de um viciado em guerra, alguém que já não se vê fora de uma zona de conflitos, de situações de vida ou morte.Fazer compras num super mercado ou passar o fim de semana com a sua família já não é mais o suficiente, como deixa marcado no diálogo que tem com o seu filho. Há apenas uma coisa na vida que ele realmente se importa, que ele diz ter amor: desarmar bombas.

Nota: 9

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Dançando no Escuro

Por Daniel Senos

A crueza do cinema do Lars Von Trier sempre me atraiu bastante: direto e conciso, o diretor trabalha com roteiros de grande impacto que exploram o lado emocional e psicológico de suas personagens (ou como costumam dizer, as ‘’mulheres de Trier’’). ‘’Dançando no Escuro’’ conta a história de Selma (Bjork), uma imigrante do Leste Europeu que veio para os EUA a trabalho, com o objetivo de pagar a operação para seu filho, que possui uma rara doença, sendo ela própria também portadora. A obra é um exemplo do cinema de Trier, seguindo conceitos do Dogma 95 (para uma breve explicação, consulte o texto sobre ‘’Dogville’’, do mesmo diretor) como a câmera de mão usada em diversos momentos da trama.

Em termos técnicos, o filme é primoroso: temos no filme a presença da tradicional câmera trêmula de Lars Von Trier que capta belos momentos, principalmente em momentos de espetáculo musical, como a cena do trem e a da fábrica; a fotografia é bastante bonita e merece seus créditos. As coreografias são bem trabalhadas e, aliadas à voz e talento da inspirada cantora-atriz do papel principal, fazem com que o filme tenha ótimos momentos em suas cenas musicais.

Não é possível citar o filme sem elogiar o ótimo desempenho de Bjork, que estava bastante a vontade para cantar e atuar, encarnando o papel com uma maestria surpreendente. Impossível não se emocionar com cenas de adversidades, em que a atriz passa com sucesso toda a emoção que está contida na personagem. A seqüência musical em que Selma começa a abdicar de sua visão e de todas as coisas materiais (‘’I’ve Seen it All) é de uma sensibilidade incrível. A personagem, à medida que sua visão lhe deixa, tenta se conformar com a sua situação, justificando que já viu um pouco de tudo no mundo, e que não há nada mais para ser visto, como a letra da canção nos mostra.

A estrutura do filme é interessante, intercalando cenas narrativas com cenas musicais. A paixão da personagem principal por filmes musicais é tanta que, como uma forma de escape da dura rotina que enfrenta na fábrica, ela se perde em devaneios, criando ‘’musicais internos’’ para conseguir agüentar a exaustão e as dificuldades. Em momentos difíceis, Selma se transporta para um musical, onde ela é a estrela e se delicia em sua doce fuga da realidade. De uma forma bastante peculiar, à medida que perde a visão, sua audição e percepção interna aumentam, e talvez para carregar esse fardo ela usa os diversos sons para criar seus musicais internos.

A beleza dos devaneios de Selma é contrastada de forma interessante com as cenas da realidade, que são filmadas pelas mãos do próprio diretor, trêmula, mostrando a perturbação enfrentada pela protagonista e a crueza de uma realidade que se mostra cada vez mais difícil para Selma Jezkova. As cenas musicais possuem uma beleza estética admirável, afinal, o que não parece perfeito e bonito no plano imaginário?

A crítica aos EUA é bem clara, com direito a closes instigantes à bandeira americana. A personagem principal é não só explorada pelo sistema do país, como é traída por um amigo americano e é injustiçada pelo Tribunal americano. Selma chega ao país, que ao invés de lhe oferecer oportunidades, acaba por devorá-la, levando a história a um desfecho bem triste. Embora haja controvérsias em relação a esse tópico, do filme ter um tom crítico aos EUA ou não (e olha que Lars Von Trier nunca esteve em solo americano), acredito que há sim uma tentativa de mostrar como o capitalismo voraz transforma Selma em uma espécie de peça, que ao se tornar maléfica é simplesmente descartada do sistema.

Apesar do tom melancólico da trama, o filme trabalha uma questão interessante, afinal , mesmo depois de todos os eventos trágicos na vida da protagonista, Selma consegue o que veio buscar na Terra do Tio Sam. Seus esforços não foram em vão, e com bastante determinação ela atinge o objetivo pelo qual batalha o filme todo. Mais do que um musical, ‘’Dançando no Escuro’’ é uma importante lição de vida, para que não desistamos de nossos sonhos e metas. Convoca-nos a batalhar até o fim pelo que queremos, mesmo que os obstáculos impostos sejam grandes. Mesmo que o preço a se pagar tenha que ser muito alto.

‘’They say it’s the last song
They don’t know us, you see
It’s only the last song
If we let it be’’

Nota: 10

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